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O PIONEIRISMO DE CLARA ANGÉLICA


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

Mal acordo neste domingo de dia das mães e leio as mensagens saudosas dos meus amigos Nestor Amazonas e Kim Moura, saudosos. A jornalista Clara Angélica Porto foi morar na eternidade. A talentosa e doce amiga nasceu no dia 18 de dezembro de 1949 e fez do pioneirismo a sua marca.

Aos 16 anos foi contratada pelo jornal Gazeta de Sergipe como colunista social. Quando a “Gazeta de Sergipe” celebrou o seu décimo segundo aniversário, a jornalista Clara Angélica Porto estreou com a sua coluna. Na edição do dia 14 de janeiro de 1968, ao assinar a coluna “Vida Social” pela primeira vez, Clara anunciou num texto de abertura aquilo que pretendia realizar.

“Depois de desaparecer por alguns dias, volta agora mais uma coluna social da ‘Gazeta de Sergipe’. Esperamos que a nossa maneira de ver a vida social agrade aos nossos leitores, pois procuramos dar o máximo de nós. Aos domingos faremos uma reportagem mais ampla, com entrevistas e notícias várias, a fim de não nos tornarmos monótonos. ‘Vida Social’ deseja a todos os seus leitores um 68 cheio das coisas boas que o mundo ainda tem”.

A coluna manteve um padrão próximo àquele seguido por jornalistas como Anderson Nascimento, Luiz Adelmo e Ilma Fontes, porém em tom mais brando e menos revelador das paixões ideológicas da jornalista, o que não impediu Clara Angélica de ter problemas políticos com a ditadura militar que governava o Brasil.

Fazia referências aos socialites de sempre e aos novos ricos; entrevistava dirigentes de clubes sociais influentes, como Clodoaldo de Alencar Filho, à época presidente da Associação Atlética de Sergipe; casamentos dos filhos de famílias tradicionais; viagens de gente chic; aniversários; concursos de beleza; e, fatos da vida política e econômica.

A nova colunista era um nome ligado às artes desde a infância. Havia atuado no rádio, na música, no teatro, na literatura, mesmo sem haver completado ainda a idade de 17 anos de idade. Filha de família tradicional, atendeu o convite recebido do jornalista Ivan Valença, então secretário de redação do jornal, mas as tratativas para que a menor passasse a assinar a coluna foram feitas entre o diretor, fundador e proprietário do jornal, Orlando Dantas, e o pai de Clara, Newton Porto.

A rigidez dos padrões morais então vigorantes impedia a colunista de ter acesso a redação, onde somente trabalhavam homens. Os detalhes foram revelados pela própria Clara, em ‘Bate Bola’ publicado no caderno da jornalista Thais Bezerra, no Jornal da Cidade, e, também em relato que produziu sobre a sua atividade como colunista social durante a ditadura militar, publicado no blog do jornalista Luiz Eduardo Costa:

“E assim foi que me tornei a pequena musa da Gazeta. Todos os dias, por volta das 4 horas, deixava minha coluna no balcão da frente com Ivan, ou seu Orlando. Ouvia as vozes da redação, do outro lado da parede fina: Ela está aqui!

Ancelmo Gois, que na época era foca do jornal, encarregava-se de avisar. Ela hoje está de azul... de amarelo... Ancelmo ficava olhando pela porta entreaberta que dava acesso à redação. Nino Porto, meu irmão, mandava acabar a saliência. Eu tentava não rir. E seu Orlando me olhava com aqueles óculos de leitura com aqueles olhos cor de esmeralda e balbuciava algo inaudível que significava que a coluna estava entregue e está na hora de ir embora.

Eu adorava essa corte diária e saía de lá me sentindo linda e querida. Ezequiel Monteiro, que também tinha olhos de esmeralda, passou a deixar pequenos poemas diários no quadro verde de avisos. Seu Orlando respeitava, Ivan curtia muito e não apagavam, para que eu pudesse ler, afinal era poesia de Ezequiel para a musa do jornal. E assim é que todos os dias, eu ganhava uma estrofe amorosa de Ezequiel, que hoje lamento não ter anotado. Com o passar do tempo, daria um caderno. Aí Ancelmo, além de anunciar somente ela chegou, anunciava tá lendo, tá rindo...”

A coluna Vida Social repercutiu e se transformou em um espaço editorial importante do periódico. Isto trouxe problemas para a jovem jornalista. Em pouco tempo, Clara se transformara numa personalidade sobre a qual se fixava o foco dos holofotes e gravitavam os comentários dos intelectuais mais badalados, como o escritor Hunald Alencar e o seu pai, o poeta Clodoaldo de Alencar, para quem a coluna, pelo seu teor político, deveria se chamar Vida Socialista e não Vida Social.

A jornalista agitava a vida social e cultural em Aracaju. Clara fazia teatro e, ao lado do também jovem jornalista Pedrito Barreto, organizava festas na cidade, sem saber que era observada pelo serviço secreto do Exército. Sem que ela percebesse, os militares acompanhavam de perto todos os seus passos. Não sem propósito, para os padrões que a ditadura militar estabelecera.

Pedrito Barreto e Clara Angélica criaram e organizaram a “Noite da Glamour Girl”, no final da década de 60 do século XX. Fizeram juntos duas festas com tal denominação. Uma realizada nos salões da Associação Atlética de Sergipe e a outra no Iate Clube de Aracaju.

Os dois jornalistas organizaram também a “Noite das Senhoritas Mais Chics de Aracaju”, na boate Catavento, da Associação Atlética. Depois do casamento de Clara Angélica e sua mudança para os Estados Unidos da América, onde fixou residência, Pedrito Barreto organizou mais uma edição da festa em parceria com a jornalista Lânia Duarte.

Clara era muito ligada aos líderes estudantis Wellington Mangueira, João Gama e Jackson Barreto. Fora convidada para compor a chapa encabeçada por Gama que disputou a gestão do Diretório Central dos Estudantes, em 1968. Ganharam a eleição e, como seus colegas, Clara Angélica entrou para a lista de militantes de esquerda que eram vigiados pelos agentes de segurança do Exército em Sergipe.

Ainda em 1969, conheceu um norte-americano que estava trabalhando em Aracaju e um ano depois, casada, partiu com ele para os Estados Unidos da América, onde passou a viver e foi mãe de dois filhos. Sua última coluna foi assinada no dia 26 de agosto de 1970, dois anos e sete meses depois da sua estreia.

Na segunda metade da década de 80 do século XX, divorciada, voltou a viver em Sergipe. Clara Angélica foi subsecretária de Cultura do estado de Sergipe, no período em que o cargo de secretário de estado da cultura foi exercido pelo jornalista Joel Silveira. Clara também foi editora do jornal “O Que” e apresentadora da edição local do “TV Mulher”, na “TV Sergipe”, ao lado do jornalista Theotônio Neto. Toda a sua trajetória faz de Clara Angélica um nome muito importante na história do jornalismo sergipano, marcada sempre pelo pioneirismo.

Acima de tudo, uma amiga boa, inteligente e doce.

 

A INFÂNCIA – MEMÓRIAS DE JORNALISTA – CLARA ANGÉLICA PORTO

https://youtu.be/jsSIQub9kUs

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