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A MORTE DO PROFESSOR VI

                                              Belo Horizonte - 1950

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Viúvo de Ana Maria Selmi Dei Guimarães desde junho de 1981, Archimedes era pai de cinco filhas, todas baianas. Era uma família muito unida que desfrutou de vida social equilibrada. As meninas tiveram uma juventude saudável e farta, tanto em Salvador como em Belo Horizonte.

Quando Arquimedes retornou a Salvador, em 1948, a família permaneceu morando em Belo Horizonte. Naquele período, Heloísa, com seis anos de idade, ligou-se muito à mãe e passou a acompanhá-la a todos os lugares, inclusive nas viagens e passeios que Ana Maria fazia com o marido.

Vivendo outra vez em Salvador, Archimedes era um provedor que não deixava faltar nenhum amparo econômico e viajava frequentemente a Belo Horizonte para conviver com a mulher e com as filhas.

Antonieta, a primeira filha de Archimedes, nasceu em Salvador, nos idos de 1927, e teve como padrinho o professor Anísio Teixeira, amigo do engenheiro. Poucos dias após a chegada da menina ao mundo, Archimedes enviou uma foto da criança a Anísio, que se encontrava em viagem de estudos nos Estados Unidos da América. O pedagogo baiano agradeceu: “Recebi o retrato de sua filhinha e o felicito vivamente, assim como à sua senhora, pelo esplêndido baby”. Antonieta morreu em 1973, aos 46 anos de idade.

A segunda filha, Graziela, chegou um ano depois, no dia 13 de junho de 1928. Em Belo Horizonte, ela casou com Ildeu de Castro, um empresário do setor gráfico nascido em 1927, e foi viver com o marido no bairro da Pampulha, à rua Padre Silveira Lobo, 734.

Iolanda, a terceira, nasceu em novembro de 1929 e casou com o médico Dauro Manso Cabral, um mineiro nascido em 1923. O casal morava à rua Carangola, no bairro Santo Antônio.

Eloísa, que as irmãs tratavam carinhosamente como Luluca, nasceu no dia 15 de junho de 1942, quando Mafalda já contava com 10 anos de idade, e durante toda a vida se orgulhou da sua cor branca. Em 1960, aos 18 anos de idade, conseguiu uma bolsa de estudos com a ajuda do pai e permaneceu durante um ano aprimorando os seus conhecimentos da língua inglesa, nos Estados Unidos da América.

Em 1971, Heloísa ingressou na Petrobrás, onde trabalhou durante 10 anos, até a sua aposentadoria, em 1981, em face da sua doença mental. Colou grau e casou-se, em 1972, com o mineiro Delani Elísio Prado, seu colega no curso de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, um ano mais novo que ela.

Logo após o matrimônio, o casal mudou-se para Itajubá, onde Delani e Heloísa exerciam o seu trabalho como advogados. Ela advogou, ajudando o marido, até os 33 anos de idade, em 1975, quando foram viver em Belo Horizonte, na residência dos pais dela.

Heloísa começou a reclamar de crises de insônia e à noite costumava deixar o marido na cama, transferindo-se para o quarto da mãe, que também passou a atuar como apaziguadora dos desentendimentos da filha com o marido. Sob a representação de Heloísa, a sua mãe era responsável pela alegria da casa, transmitia carinho e afeto ao marido e a todos os filhos.

Até mudar-se para a casa do seu pai, ela aparentara ser uma pessoa dócil, mas pouco a pouco começaram a surgir sintomas de agressividade, que desfizeram a aura de mulher perfeita que a família construíra em torno da filha caçula. Durante três décadas Heloísa fora, aos olhos da família, aquela menina capaz de tudo fazer com perfeição. Era erudita, meiga, educada, dedicada a trabalhos manuais, culinários, costura, manicure, cabeleireira, poliglota, fluente em Inglês, Francês, Alemão, Espanhol, Japonês e Italiano. Gostava de música e aprendera, como autodidata a tocar piano, acordeon e violino.

 

 

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.
 

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