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O CORONEL SILVINO PEREIRA


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Dele ainda sei muito pouco. É muito importante saber mais. Convencido estou da indiscutível importância deste sergipano, nascido em Itabaiana, na região correspondente agora ao município de Macambira, no ano de 1895. Não faço ideia se sua família tinha muitas posses ou se ele ficou rico e se tornou um empresário e político influente pelas suas habilidades em algum ramo de negócio ou por haver herdado um patrimônio sólido.

O que encontrei até agora registra um coronel Silvino Pereira que era empresário, dedicado ao ramo da construção civil e depois ao comércio de secos e molhados. Ele conseguiu um contrato para construir a Estação Ferroviária de Calado, no Estado de Minas Gerais, região que corresponde nos dias de hoje ao próspero município de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço.

Um outro contrato permitiu ao coronel Silvino Pereira executar as obras de parte da Estrada de Ferro Vitória-Minas, naquele trecho. As obras da ferrovia, concebida para ligar as cidades de Vitória e Belo-Horizonte, estavam paralisadas desde o início do século XX e foram retomadas no ano de 1920, mas os contratos do que cabia ao itabaianense tinham sua execução prevista a partir do ano de 1922.

Silvino Pereira viajou para Calado naquele ano de 1922. Tinha então 27 anos de idade e já estava casado com a também itabaianense Marcionília que o acompanhou. Ao chegar em Calado, o empreiteiro enfrentou a maior das dificuldades interpostas em seu caminho para a execução dos contratos que assumira: a escassez de mão-de-obra.

A ausência de trabalhadores fez, certamente, do coronel Silvino Pereira um dos maiores responsáveis pela migração de jovens sergipanos para o Estado de Minas Gerais durante a chamada Primeira República e nos anos iniciais da Era Vargas. Ele atraiu muitos deles com a promessa de bons postos de trabalho e boas oportunidades de ganhar dinheiro nas obras da Estrada de Ferro em território mineiro.

Silvino promoveu uma espécie de “diáspora”, principalmente na região de Macambira. Para que se avalie, somente no ano de 1926, em uma das suas viagens a Sergipe, Silvino convenceu mais de 15 jovens a acompanhá-lo na aventura mineira. Apenas de uma família, todos os filhos do sexo masculino, em número de cinco, se encantaram com a proposta do jovem empresário, coronel da Guarda Nacional. O único representante da prole de Romualda e Tolentino que não viajou foi Petrina, por ser a única mulher entre os seis irmãos.

Os que deixaram suas casas em Macambira se fixaram inicialmente nas regiões que correspondem agora aos municípios de Antônio Dias, Coronel Fabriciano e Resplendor. Alguns poucos retornaram a Sergipe. Boa parte se transformou em funcionários da ferrovia e mais tarde da Companhia Vale do Rio Doce que depois de criada assumiu a propriedade e o controle das operações da Estrada de Ferro.

Após o término das obras para as quais foi contratado, Silvino Pereira resolveu fixar residência em Calado e passou a diversificar os seus negócios. Mais tarde, Calado ganhou status de município com a denominação de Coronel Fabriciano. Em pouco tempo, o empreiteiro de Itabaiana era o mais importante empreendedor de Coronel Fabriciano em vários ramos. Daí a participar da política local foi um passo visto com naturalidade que transformou o itabaianense em um político muito influente.

A liderança política e econômica de Silvino Pereira ostentava vários sinais exteriores como a edificação de propriedade da família Pereira, localizado no centro da cidade. Foi o primeiro sobrado urbano erguido na região do Vale do Aço, todo construído em alvenaria. A obra foi executada no mesmo período em que ele estava assentando os trilhos da ferrovia Vitória-Minas.

O Sobrado dos Pereira abrigava no pavimento térreo o Armazém Silvino e Companhia, dedicado ao ramo de secos e molhados. Em anexo ao estabelecimento comercial o coronel construiu a garagem do seu Ford modelo 1929, veículo que importou dos Estados Unidos da América. Foi o primeiro automóvel que circulou pelas ruas da cidade. O piso superior era o local de residência da família Pereira.

O edifício era a maior e mais importante obra civil ali executada e foi o primeiro da cidade a receber energia elétrica. Tal situação perdurou até 1944 quando a ACESITA se instalou na localidade e possibilitou o surgimento de edificações bem mais modernas que o sobrado construído pelo coronel.

O prédio dos Pereira foi totalmente modernizado no final da década de 50 do século XX. Houve substituição das portas em madeira do armazém por novas e modernas portas de aço bobinadas, então consideradas mais seguras. Todas as instalações hidráulicas e elétricas foram modernizadas.

Numa eleição de quase unanimidade, Silvino Pereira foi eleito como o primeiro vice-prefeito do município de Coronel Fabriciano. O itabaianense morreu no Vale do Aço, em 1959.

 

 

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras, da ABROL e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Foto: O coronel Silvino Pereira (de paletó) dá o pontapé inicial em uma partida de futebol no ano de 1948, em Coronel Fabriciano.  

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