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ARRUDA


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Sônia estranhou a ausência da irmã na cozinha, logo cedo, junto com as outras meninas. Era costume de todas elas o encontro ao pé do fogão a lenha. A hora da refeição matinal era também espaço de convívio fraterno.

Todas as noites, a cada programa que faziam, 50 por cento do que recebiam eram destinados ao Bazar. Com esse tipo de renda e mais o movimento do bar, Dona Clarice fazia o custeio e obtinha o lucro que a sua casa permitia.

Isto garantia a todas as meninas o privilégio de fazer três refeições por dia, algo que era muito difícil para os demais habitantes de São José das Pombas naqueles tempos de estiagem prolongada. O Bazar de Dona Clarice possibilitava a Joedson da Padaria a venda de parte significativa da sua produção diária. Também a Bodega de Oliveira tinha uma boa porção da sua renda oriunda das vendas que fazia para abastecer o lupanar.

O fato de ser quase nove da manhã fez com que Sônia fosse até o quarto de Ana. Ela estava na cama num quadro que tanto podia ser visto como torpor quanto era também sonolência de uma noite mal dormida. O lençol estampado e encardido que forrava a cama estava muito ensanguentado.

O odor de álcool eliminado pelo suor do Coronel Garcia era muito forte no ambiente. A este se misturava um cheiro que lembrava um pouco o do cloro, característico do leite que o fazendeiro expeliu sobre o corpo de Ana no clímax do coito. O sangue e as crostas brancas de uma quase gelatina leitosa grudados na pele de Ana demonstravam a necessidade que tinha a menina de um bom asseio.

O seu rosto expressava o estado de choque e a estupefação que a dominavam. O corpo não tinha energia suficiente. Sônia conseguiu uma toalha umedecida com um pouco de água que ainda restava na casa e começou a limpar o corpo da irmã. A roupa que Ana vestia fora rasgada pela volúpia do Coronel Garcia na noite anterior.

- O que você sentiu? Gostou? Foram as primeiras perguntas de Sônia.

- Não pensei que doía tanto. Não sei se vou conseguir andar novamente. O Coronel é muito grande. Mais nunca quero saber disto e nem quero pegar barriga – respondeu Ana.

Depois disto silenciou e não quis falar mais nada sobre aquele assunto.

Sônia vestiu a irmã e a levou para a casa de Dona Valentina. Quando a mãe recebeu as filhas e atentou para o quadro geral de Ana, entendeu tudo. Tomou Ana em seu peito, num forte abraço e perguntou:

- Menina, o que você fez?

Ana foi direta na resposta:

- Foi o Coronel Garcia, mãe. Só não quero pegar barriga.

. Tudo bem, minha filha. Vou fazer um chá de arruda.

A garrafada de arruda foi grande e durante uma semana se repetiu. Era comum o uso do chá de arruda em São José das Pombas. As velhas parteiras ensinavam que a planta era eficiente e ajudava a descer o boi, a menstruação. Também era muito eficaz para provocar aborto. Toda mulher que tomava o chá tinha sucessivas contrações uterinas. Claro que Ana sofreu também os efeitos colaterais do chá de arruda: dor no abdome e vômitos.

Tudo era ensinado às parteiras pelo Manual do Dr. Chernoviz, o livro indispensável nas casas das famílias que tinham posses e, também, nas residências das parteiras.

Uma semana depois do tratamento à base de arruda, Ana se sentia bem melhor, embora não demonstrasse mais nenhum entusiasmo com nada. Não quis acompanhar Sônia quando esta retornou ao Bazar de Dona Clarice. Ficou em casa, com Dona Valentina, e confessou que o Coronel Garcia prometera reformar o imóvel em que elas viviam, melhorando as paredes, o piso e o telhado. A casa era construída com varas e barro de sopapo. O piso era de terra e a cobertura feita com palhas.

Acompanhada por Ana, Valentina foi ao Sobrado da Várzea procurar o Coronel Garcia. O dono da casa as recebeu na varanda e mandou que entrassem. Ana sentou-se em um banco na varanda do sobrado, sempre olhando para o chão e resolveu ficar ali esperando a mãe retornar.

O fazendeiro informou a Dona Valentina que a sua filha se deitara com ele espontaneamente e que a ela não prometera absolutamente nada. A matriarca saiu da casa frustrada e em silêncio andou a meia légua que separava a sua moradia do elegante Sobrado do Coronel Garcia.

Ana emudeceu e mais nunca pronunciou uma palavra sequer. Depressão e pânico foram as marcas do seu comportamento desde então. Qualquer homem que se aproximava da sua casa fazia com que ela corresse para a mata e ali ficasse escondida até se sentir segura, o que somente acontecia após o afastamento da figura masculina.

       

 

*Jornalista, doutor em Educação, professor aposentado do Departamento de História, do Mestrado e do Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe. Membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

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