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OS PERIGOS DA INFÂNCIA


 

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Se o sofrimento serve para expiar os pecados, quando Eleutério completou o seu primeiro ano Sônia já estava livre de boa parte das culpas que acumulou ao longo da sua curta vida. Foram 12 meses provando de modo intenso o amargor da condição humana, o travo dos frutos mais difíceis de engolir.

Sônia conheceu a angústia da solidão, numa cidade estranha, sendo uma mulher mãe solteira de filho que jamais conheceria o pai. Teve tempo suficiente para pensar e refletir a respeito do quanto fora ingrata com sua mãe Valentina e com sua irmã Ana durante o período em que desfrutou de uma vida de fartura.

Morando em casa boa, obtendo ganhos mensais que lhe garantiam uma vida de muito luxo, Sônia nunca saiu de Cabedelo para fazer uma breve visita à sua mãe e à sua irmã na longínqua São José das Pombas, região limítrofe entre a Borborema e os caminhos que levam ao vale do Cariri.

Pior ainda, nunca buscou um portador que levasse a Dona Valentina ou à desditosa Ana um mísero tostão ou uma quantidade mais generosa de recursos que permitissem a sua mãe e a sua irmã realizar melhoramentos no casebre em que viviam. Sequer lembrou de mandar fazer a entrega de um corte de pano para que elas costurassem um vestido melhor.

Sônia nunca buscou nenhuma notícia sobre sua mãe, a respeito da sua irmã, nem quis se informar quanto ao destino que tiveram os seus irmãos que viviam trabalhando em um dos “campos de concentração” ou frente de trabalho, como queiram, no interior do Ceará. Da mesma maneira, não mandou notícias a ninguém. Simplesmente desapareceu no mundo.    

Depois que a tempestade se abateu sobre o seu caminho e já vivendo sob condições insalubres na região do Varadouro, em João Pessoa, Sônia queimou parte das economias que guardara para evitar que seu filho contraísse as doenças comuns do primeiro ano de vida.

Gastou dinheiro para comprar filtro de barro, a fim de que ela e Eleutério bebessem sempre água fervida e filtrada. Ao menos isto, na moradia insalubre que lhe servia de habitação. Gastava muita lenha para ferver a água de uso na casa e a roupa que ela e o seu filho vestiam.

Aprendeu com Ermelinda, a parteira, única amizade que fizera depois de mudar para João Pessoa, que era importante lavar bem as suas mãos e as mãos de Eleutério, várias vezes durante o dia. E, principalmente, higienizar cuidadosamente os alimentos que consumiam, principalmente aqueles que era ingerido in natura como as frutas.

Um dos problemas de morar onde Sônia morava era a necessidade de guardar tudo em latas bem fechadas para evitar a visita incômoda dos ratos e baratas que buscavam as cozinhas, principalmente durante as madrugadas. Qualquer descuido e os alimentos ficavam expostos a contaminações perigosas.

Em boa parte dos casos, contrair uma diarreia era muito arriscado e poderia levar à morte. Isto sem falar de outras doenças que comumente atacavam os pequeninos e, também as pessoas adultas, como varíola, peste, cólera, tuberculose e as várias enterites. Viver no Varadouro em que Sônia viveu, sob saneamento urbano precário era por demais arriscado.

Tudo isto fazia com que a vida de Sônia, mesmo sem dispor de qualquer luxo, fosse cara para compensar os riscos aos quais ela e Eleutério estavam expostos, em face da ausência de uma boa estrutura de saneamento básico. Para completar, aquele primeiro ano de vida do menino fora um momento em que sua mãe era apenas uma unidade de consumo e não conseguia gerar nenhum tipo de receita.

Depois daqueles 12 meses difíceis, Sônia estava desesperada. Consumira praticamente todo o dinheiro que possuía no banco e estava prestes a iniciar uma fase perigosa de venda do seu patrimônio representado pelas joias que possuía. Eram peças valiosas em ouro, em prata e todas trabalhadas com pedras preciosas.

Sônia sabia o quanto era difícil resistir àquele novo quadro da sua vida. Tinha a responsabilidade de criar e educar Eleutério e disto ela não abriria mão sob nenhuma hipótese. E em meio a tudo aquilo foi notificada de que deveria desocupar o imóvel no qual vivia, para que o casarão fosse demolido.

Outra vez, a amiga Ermelinda, também despejada, foi a bússola que apontou o porto para Sônia. As duas mudaram para o loteamento do Miramar, então um subúrbio distante de João Pessoa. Para economizar nos gastos, tomaram a decisão de dividir o aluguel de uma pequena casa de dois quartos.

Bom negócio para ambas. Ermelinda trabalhava o dia inteiro e quando retornava sempre encontrava comida pronta e quentinha sobre o fogão. Sônia tinha com quem dividir as despesas da casa que não eram pequenas. E sempre que Eleutério precisava de um atendimento médico, Ermelinda que era enfermeira e parteira ajudava Sônia a levar o menino em um posto de saúde ou em um hospital.

Desesperada e precisando trabalhar para gerar renda, Sônia descobriu que no subúrbio do Miramar havia o Lar dos Pequeninos, mantido pela Ordem da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Ali ela poderia deixar o pequeno Eleutério durante o dia sob os cuidados das freiras e pegá-lo no final da tarde quando voltasse do trabalho.

Parecia que a sorte estava lhe voltando a sorrir...


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