Jorge
Carvalho do Nascimento
É
uma boa novidade a estreia de João Augusto Gama da Silva como escritor. A noite
de autógrafos do seu livro, MEMÓRIAS DE UM POLÍTICO, que ocorrerá a partir das
17 horas do dia 19 de novembro deste ano de 2024, vem sendo aguardada com
expectativas pelos seus amigos e pelos que se interessam pela história política
contemporânea.
Gama
é da geração de brasileiros que nasceu na década de 40 do século XX. Os que
nasceram nos anos 40 e 50 da última centúria, inevitavelmente tiveram o seu
caminho marcado pelas nódoas da ditadura militar que se instalou no Brasil a
partir de 1964. Os que usurparam o poder, depondo o presidente João Goulart naquele
ano, se aboletaram sem legitimidade nos poderes da República e governaram o
Brasil até o ano de 1985, quando João Baptista Figueiredo, o último ditador,
foi sucedido por Tancredo Neves que morreu antes de tomar posse e abriu espaço
para o seu vice-presidente, José Sarney.
Os
militantes políticos brasileiros que se organizaram nos partidos de esquerda,
mesmo postos na ilegalidade pelos “donos do poder”, lideraram a resistência
democrática. Quando os oficiais militares que governavam o país, coadjuvados
por civis de extrema direita, extinguiram os partidos políticos existentes e
impuseram ao Brasil o regime do bipartidarismo, os militantes de esquerda se
filiaram ao partido de oposição legalmente permitido, o Movimento Democrático
Brasileiro – MDB, convivendo ao lado de lideranças sindicais, líderes do
pensamento liberal e de algumas lideranças de direita mais moderadas que não
concordavam com a ditadura imposta ao país.
Sem
nenhuma dúvida, dentre os que lutaram contra a ditadura, as lideranças do
movimento estudantil merecem especial destaque. Secundaristas e universitários
exerceram papel fundamental na mobilização da sociedade brasileira, no trabalho
de agitação e propaganda e na mobilização dos que se dispuseram a organizar
manifestações e levar às ruas o grito sufocado dos oprimidos.
Mesmo
colocadas na ilegalidade e sujeitadas por uma legislação draconiana, a União
Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES e a União Nacional dos
Estudantes – UNE possibilitaram o surgimento de importantes lideranças da vida
brasileira. Alguns tombaram em meio ao processo e outros ocuparam posições
destacadas na vida brasileira.
São
muitos os nomes de líderes brasileiros que surgiram naquele período e que
ganharam muita visibilidade como José Dirceu, Vladimir Palmeira, José Serra,
Jean Marc van der Weid, Honestino Guimarães, Edson Luiz, Alexandre Vanucchi
Leme, Dilma Roussef e Luís Travassos, para citar apenas estes.
Em
Sergipe, é indiscutível a importância de líderes estudantis como Rosalvo
Alexandre Lima Filho, Chico Varela, Clodoaldo, Jonas Amaral, Carlos Alberto
Menezes, Wellington Paixão, Benedito de Figueiredo, Wellington Mangueira, Luiz
Antônio Barreto, Mário Jorge Menezes Vieira, Carlos Cauê, Edvaldo Nogueira,
Marcelo Déda, Antônio Samarone, Sérgio Bezerra, Ancelmo Gois, Dilson Menezes
Barreto, Jackson Barreto de Lima e João Augusto Gama da Silva, dentre tantos
outros.
João
Augusto Gama da Silva resolveu produzir o registro das memórias da sua vida
pública e nos lega agora este volume que, sob a sua ótica, nos fala de uma era
difícil da vida brasileira, como sabemos. É o olhar de um indivíduo que relata
importantes movimento da vida sob a ditadura brasileira.
Claro
que o olhar de Gama é privilegiado. Afinal, é um palco no qual ele ocupou
posição destacada sob a condição de perseguido que foi. E nesta condição gravou
o seu nome na história política do Brasil, liderando e sendo liderado por uma
geração inteira que marcou a segunda metade do século XX.
Quando
o historiador italiano Carlo Ginzburg publicou o seu ensaio O Queijo e os
Vermes, apresentando a história do moleiro Domenico Scandella, o Menocchio,
perseguido na região italiana do Friuli pela Inquisição, ele demonstrou como a
história de um sujeito, comum como tantos outros do século XVI, é essencial
para nos ajudar a compreender a história de toda uma comunidade, a história de
um dado tempo, a possibilidade de ler as mentalidades dominantes num
determinado período.
As
memórias da vida pública de João Augusto Gama da Silva não falam apenas de si.
Com ele, podemos aprender mais sobre a vida privada e a vida pública em Sergipe
e no Brasil. Filho de pai comerciante e sobrinho do primeiro bispo de Aracaju, ele
nos fala sobre a organização das famílias bem situadas das camadas médias
aracajuanas da primeira metade do século XX.
Órfão
de mãe, Gama nos revela a crueza da condição feminina num período em que a
gestação e o parto representavam forte ameaça à saúde e a vida das mulheres. A
sua mãe, Zalda, morreu dois dias antes de Gama celebrar o seu primeiro
aniversário de nascimento. Morreu de parto juntamente com o filho que deveria
nascer naquela ocasião.
Ler
Gama é fazer um passeio pelo processo de escolarização dos filhos de
empresários de porte médio, como era o seu pai, e do que representava para os
jovens aracajuanos a formação em instituições escolares como o Colégio do
Salvador, o Colégio Tobias Barreto e o ingresso na Faculdade de Direito da
Universidade Federal de Sergipe.
Mas,
o forte das suas memórias são os relatos da vida política sob a ditadura. Seja
dos fatos por ele vividos como líder estudantil e das perseguições políticas
que sofreu em tal condição, seja pelos registros que faz das perseguições
sofridas por amigos seus como Tertuliano Azevedo e Jaime Araújo, dentre os
muitos registros que faz Gama.
Homem
erudito, leitor contumaz, ator e agenciador cultural, o debate sobre cultura
não escapa às anotações memorialísticas de João Augusto Gama da Silva. São
muito ricas as suas notas a respeito do teatro em Sergipe e da influência que a
sua geração recebeu de teatrólogos como Paschoal Carlos Magno e João Costa,
além da liderança intelectual exercida por jovens contemporâneos daquele
período, a exemplo do jornalista Luiz Antônio Barreto.
Gama
faz um registro especial e homenageia a figura do primeiro reitor da
Universidade Federal de Sergipe, João Cardoso do Nascimento Junior, exaltando a
sua engenhosidade para resistir a todas as pressões que recebeu dos generais
que permanentemente pressionavam a reitoria para expulsar dos quadros da UFS os
estudantes que exerciam liderança política. João Cardoso nunca excluiu ninguém.
Graduado
em Direito e inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, foi muito curto o
período durante o qual Gama exerceu a advocacia. Como o pai, resolveu se
dedicar ao comércio, decisão que mereceu um capítulo especial nos seus
registros memorialísticos, relatando as suas diversas iniciativas empresariais.
Momentos
relevantes da vida social da elite sergipana, envolvendo os interesses
econômicos não escaparam ao olhar atento de Gama. Merece menção o assassinato
do empresário Fernando Luiz de Melo Barreto, um dos herdeiros da Usina Santa
Clara. Conexamente, Gama registra também a tentativa de homicídio sofrida pelo
empresário Carlos Augusto Mesquita, à época tido como um dos suspeitos pela
morte do empresário Fernando Barreto. Tudo envolvendo os problemas relativos
aos direitos de herança da Usina Santa Clara.
Nos
registros do debate político chamam a atenção as notas que faz Gama acerca da
sua eleição como prefeito de Aracaju, em 1996. Especialmente os desafios que
enfrentou como chefe do Poder Executivo da capital do Estado de Sergipe,
tentando superar os problemas vividos por uma prefeitura sucateada e
desorganizada que recebeu do seu antecessor.
Ao
longo de todo o texto, João Augusto Gama destaca a relevância especial de um
parceiro e líder político ao lado do qual sempre atuou: Jackson Barreto de
Lima. Coloca a importância de Jackson principalmente na sua candidatura a
prefeito de Aracaju, orientada por ele. Anota também momentos difíceis que
viveu ao lado de Jackson, citando a campanha eleitoral de 1978, quando Jackson
foi candidato ao cargo de senador da República na mesma chapa em que Albano
Franco foi candidato a governador. Do mesmo modo, analisa a campanha eleitoral
de 2000 para o cargo de prefeito de Aracaju, quando assumiu o apoio à
candidatura de Marcelo Déda na sua sucessão.
O
período em que Jackson Barreto de Lima exerceu o cargo de governador do Estado
de Sergipe merece uma análise cuidadosa de Gama que exerceu os cargos de
secretário de Estado do Planejamento e de secretário de Estado da Cultura.
Importante: Gama anota muitas dificuldades vividas por Jackson como chefe do
poder executivo do Estado de Sergipe que dificultaram o seu trabalho.
Tem
razão Carlo Ginzburg. Lançar o olhar sobre a vida de um indivíduo é se
apropriar de mentalidades que nos possibilitam compreender a vida de uma
sociedade. Os indivíduos incorporam o contexto sob o qual vivem. Com mais de 75
anos de idade, Gama viveu diferentes períodos de uma vida pública rica que diz
não apenas de si, mas de todos nós brasileiros, principalmente os que vivem em
Sergipe.
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