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A FRIEZA DE SÔNIA

      Jorge Carvalho do Nascimento     Quando Sônia completou 26 anos de idade, em 1944, era bem visível o quanto prosperara nos últimos dois anos e meio nos quais esteve exclusivamente dedicada ao negócio da prostituição no Night Club. Estava bem cuidada, com ótima aparência, pele lisa e viçosa, cabelos bem alinhados, muito arrumados. Eleutério, seu filho, estava completando oito anos de idade naquele ano, enquanto a sua filha, Carmen, completaria o seu terceiro aniversário de nascimento. A maternidade de Sônia era quase simbólica. As crianças viviam com o seu irmão, Willison, e sua mulher Rafaela, a quem os dois chamavam de mãe. Eleutério e Carmen chamavam a mãe biológica, Sônia, de mãe Ninha, por causa do costume que tinha Willison de tratá-la por Soninha. Graças a generosidade do seu mano, Sônia se encontrava com os filhos uma vez a cada semestre. Durante o mês de junho ela recebia a visita dos dois em sua casa durante três dias. A ausência d...

TOBIAS BARRETO E A LITERATURA BRASILEIRA

      Jorge Carvalho do Nascimento     É muito bom ter a oportunidade de falar na celebração dos 185 anos de nascimento de Tobias Barreto, durante um evento como este, organizado pela Casa de Tobias Barreto, a Academia Sergipana de Letras, conjuntamente com o Memorial de Sergipe, instituição cultural mantida pela Universidade Tiradentes. É bom compartilhar este debate com o Acadêmico José Anderson Nascimento, presidente que dignifica a Academia Sergipana de Letras pelo trabalho que vem realizando ao longo de sucessivos anos como acadêmico, estudioso e gestor da instituição. Anderson, dentre os muitos temas sobre os quais se debruçou fez também do trabalho sobre Tobias Barreto um seu campo preferencial. No seu artigo TOBIAS BARRETO E A CRÍTICA, publicado no livro TOBIAS BARRETO: CRÍTICA DE LITERATURA E ARTE, Luiz Antônio Barreto chama a nossa atenção para o fato de ser dedicada a crítica toda a obra de Tobias Barreto de Menezes. Inspirado sempre pel...

DE VOLTA AO NIGHT CLUB

      Jorge Carvalho do Nascimento     Sem dinheiro, com dois filhos para sustentar, brigada com os irmãos que tentaram inutilmente dissuadi-la da prostituição, Sônia foi trabalhar, em agosto de 1941, na mansão de Fortunato Mariz, tradicional plantador de algodão paraibano que vivia no centro da cidade, onde moravam as famílias mais abastadas. Conseguiu o emprego assalariado como lavadeira de roupas e engomadeira. Trabalho pesado, lavar e engomar os ternos de linho branco do Dr. Fortunato, afamado advogado da Paraíba e principal nome que atuava nos grandes crimes do tribunal do júri paraibano, além de rico exportador de algodão. O trabalho de Sônia era muito penoso. Lavar os ternos brancos e não deixar nenhuma mancha. Preparar a goma de tapioca para finalizar a lavagem das roupas de linho e deixar o tecido alvo e com brilho. Colocar brasas no ferro de engomar, abanar, soprar e balançar o ferro pesado até que ele ficasse aquecido na temperatura cert...

PRA SAIR DO CABARÉ

      Jorge Carvalho do Nascimento     - E Sérgio? Onde anda? – perguntou Sônia de supetão. Ela havia acabado de saber o que lhe faltava conhecer sobre a história de vida de Willison, o seu irmão mais velho, e agora queria que ele desse conta da vida do segundo mais velho, Sérgio. - Vive em Belém do Pará. É guarda no Porto de Belém. Casou e é pai de uma menina. Moema tem quatro anos, é a menina dele. É uma índia muito bonita. Nosso irmão casou-se com Jaciara, uma índia lá da ilha do Marajó. Ele tá com 26 anos de idade e levou pra lá nosso outro irmão, Gladson, que tá com 25. Gladson, pela mão de Sérgio, conseguiu se empregar no Porto de Belém como estivador. O trabalho é pesado, mas ele ganha bem – contou Willison. Sônia percebeu que de um jeito ou de outro a família estava prosperando. Entendeu que precisava organizar sua vida. Nascera pobre, como seus irmãos. Ganhou a vida pelo caminho da prostituição. Virou uma quenga, uma mulher da vida, mas ga...

WILLISON E O FREI FERNANDO

    Jorge Carvalho do Nascimento     O encontro com Willison entristeceu Sônia por haver tomado ciência da morte da sua mãe, Valentina, e da sua irmã, Ana. Mas, lhe fez bem retomar o contato com a sua família, com as suas origens. E também, foi bom saber que depois de 1934, com o fim da seca, cada um dos seus irmãos tomou um rumo diferente do outro. Aquele foi um dia longo. Os médicos livraram Carmen do caroço de feijão que a menina havia colocado no nariz e Sônia convidou o irmão para ir até a sua casa e conhecer o seu primogênito, Eleutério. Nasceu uma imediata empatia entre tio e sobrinho. Com a chegada de Ermelinda, Sônia deixou as crianças sob os cuidados da amiga e aceitou o convite do seu irmão para um passeio pela cidade. Sentaram-se em uma mesa do luxuoso Hotel Globo, onde Willison estava hospedado. Beberam limonada e depois comeram alguns petiscos com algumas doses de conhaque. - Quando saí do “campo de concentração”, em 1934, tinha juntado um...

O GOLPE DA BARRIGA

      Jorge Carvalho do Nascimento     - Mulher não entende que o que homem menos gosta é de se sentir pressionado. Elas fazem tudo errado. Ela não é burra. Só pode ser maldade. Eu estava apaixonado por ela de verdade. Será que ela não entendeu que eu estava apaixonado por ela? Ou ela acha que algum homem gasta com uma mulher tudo que eu até agora gastei com ela se não tiver paixão no meio? Meu amigo Mário, ela quis me fazer de idiota e vai se dar mal. Hoje, eu e ela vamos acertar as nossas contas – desabafou o Dr. Costa. O seu desabafo foi feito em meio a mágoa que tomou conta do seu coração, depois que Sônia lhe falou da gravidez. Ao tomar conhecimento, na noite anterior, do atraso na menstruação, o médico se retirou da mesa em que estava tomando um conhaque com Sônia. Saiu absolutamente mudo, sequer se despediu. Ficou chocado com a notícia dada pela sertaneja. Eles haviam acabado de chegar de três semanas de passeios na cidade do Recife como um go...

A ORGIA DO DOUTOR COSTA

    Jorge Carvalho do Nascimento     Em dois anos de trabalho no Night Club Sônia voltou a ter uma vida na qual não mais tinha dificuldades para se alimentar e até havia matriculado seu filho Eleutério, agora com cinco anos de idade, no Jardim de Infância da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, frequentada por boas famílias da capital paraibana. Mesmo nos tempos de dificuldade, Sônia não deixou de sonhar com a boa educação escolar que deveria oferecer ao seu filho, na esperança de abrir para ele perspectivas de vida melhor e mais saudável que a sua. Transformá-lo em um homem letrado e de boas condições econômicas era o seu projeto de mãe. Desde que chegou ao Night Club Sônia cultivou amizades com homens de negócio, políticos, intelectuais e toda a horda de figurões que costumava frequentar aquele bordel. Em sua concorrida cama, Sônia permitiu que deitassem machos endinheirados como o provecto general Etelvino, autoconsiderado herói da Guerra de Canudos. ...