Pular para o conteúdo principal

Postagens

A VIAGEM

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Em 1932, do Ceará até a Bahia, o maior temor dos que vivam em pequenas comunidades e, também dos que precisavam viajar pelas estradas, trilhas e caminhos era o de um eventual encontro com os cangaceiros do bando de Lampião. Isto era bem pior que o medo em relação aos animais que viviam na mata e nos pântanos e os outros riscos de uma longa viagem com uma tropa de mulas. Um mascate como Orozimbo viajava transportando em mercadorias uma fortuna que seria suficiente para tornar rico qualquer homem que se apropriasse daquele estoque. Mascatear era um negócio muito arriscado e somente a providência divina seria capaz de proteger Orozimbo. O clima entre o mascate e a sua Sônia era de arrulhos entre dois pombinhos. O casal estava efetivamente tomado pela paixão e viajavam lado a lado, cada um em sua mula, sempre de mãos dadas. A presença do negro Timóteo era a garantia da segurança, mas também o impedimento de maior...

O MASCATE

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Seis meses depois de haver deflorado Ana, a irmã de Sônia, o Coronel Garcia continuava a assediar a filha mais velha de Dona Valentina. Mesmo tendo vivido já durante oito meses no Bazar de Dona Clarice, Sônia não fora desvirginada por nenhum dos homens que frequentavam a casa e não admitia a possibilidade de se acostar com o arrogante Coronel, de quem sentia um asco tão intenso quanto o ódio que guardava pelo estrago que o fazendeiro fizera na vida da sua irmã. Não que a Sônia faltasse apetite sexual. Esbanjava volúpia e estimulava o imaginário masculino. Nunca abrira as pernas para receber a penetração masculina. Todavia inaugurou uma prática que não era usual em São José das Pombas – o sexo oral. Virou uma espécie de especialista em boquete. Numa mesma noite chegava a saciar cinco ou seis marmanjos, cada um aguardando pacientemente a sua vez e pagando caro pelo serviço. As outras meninas não admitiam esse t...

ARRUDA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Sônia estranhou a ausência da irmã na cozinha, logo cedo, junto com as outras meninas. Era costume de todas elas o encontro ao pé do fogão a lenha. A hora da refeição matinal era também espaço de convívio fraterno. Todas as noites, a cada programa que faziam, 50 por cento do que recebiam eram destinados ao Bazar. Com esse tipo de renda e mais o movimento do bar, Dona Clarice fazia o custeio e obtinha o lucro que a sua casa permitia. Isto garantia a todas as meninas o privilégio de fazer três refeições por dia, algo que era muito difícil para os demais habitantes de São José das Pombas naqueles tempos de estiagem prolongada. O Bazar de Dona Clarice possibilitava a Joedson da Padaria a venda de parte significativa da sua produção diária. Também a Bodega de Oliveira tinha uma boa porção da sua renda oriunda das vendas que fazia para abastecer o lupanar. O fato de ser quase nove da manhã fez com que Sônia fosse...

A PERNADA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Não há nenhuma prova efetiva da existência do chamado “Direito da Pernada” ou “Direito da Primeira Noite”, mas são inúmeros os relatos de tal prática como abuso que tradicionalmente os senhores feudais praticavam com as mulheres virgens que viviam em suas terras. Os relatos dizem que em alguns lugares da Europa, quando a moça chegava virgem à noite de núpcias, antes do noivo, era do proprietário das terras aquilo que se considerava ser o privilégio do defloramento. Daí costumeiramente se falar que a primeira pernada deveria sempre ser concedida ao senhor feudal. No Brasil Colonial era hábito dos senhores de engenho e dos grandes proprietários desvirginar as mulheres escravizadas que viviam em suas terras logo após a primeira menstruação. Não esperavam a aproximação das bodas, tamanho era o abuso em relação a tal prática. Em São José das Pombas, a tradição era persistente. O Coronel Garcia era colecionador d...

O BAZAR DE DONA CLARICE

      Jorge Carvalho do Nascimento*     As quatro tochas da porta do Bazar de Dona Clarice eram acesas pontualmente na hora do Angelus, às seis da tarde. Alzirinha, fiel escudeira da pr oprietária do rendez-vous , era responsável pelo ritual.  O resistente pavio era colocado num vaso de zinco cheio de gás . No mesmo horário, as oito meninas da casa já estavam reunidas na varanda e todas juntas rezavam a oração do Angelus , puxada sempre por Dona Clarice ou por Alzirinha. Agradeciam ao criador por estarem vivas e pediam proteção para a saúde de todas e de cada uma. Rezavam também para Santa Margarida de Cortona, protetora das prostitutas, e algumas vezes pediam a São Gonçalo do Amarante que guardasse aquela casa. No nicho colocado no quarto de Dona Clarice, estavam as duas imagens – a do santo português e a da santa italiana. A oração era breve e logo as meninas saíam cada uma para o seu quarto, onde pintavam o rosto, se arrumavam e voltavam ...

JB, BIOGRAFADO: JC, BIÓGRAFO

      Livro: JACKSON BARRETO: TEMPO E CONTRATEMPO Autor: Jorge Carvalho do Nascimento Aracaju, Criação Editora, 2023     Amarílio Ferreira Neto*     Introdução: ou “Para não dizer que não falei das flores”   Aprendi com o importante intelectual italiano Carlo Ginzburg que proximidade demais gera compaixão e distância excessiva produz indiferença. Quando se trata de JB e JC é indevido que eu tenha compaixão e seja indiferente, uma vez que os conheço de perto e de longe. Acompanho a carreira de ambos desde os tempos de criança. Primeiro nas cercanias da “rua da valeta”: Avenida Visconde de Maracaju, Igreja Pio Décimo, Grupo Escolar Ivo do Prado, posteriormente, rua Corretor Aureliano no bairro Santos Dumont, Igreja São Francisco de Assis e Colégio Olavo Bilac. JB e JC são de uma geração que como disse Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Ambos fizeram, fazem acontecer na sociedade sergipana, cada...

SÔNIA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     O que poderia esperar da vida uma menina cabocla e pobre, nascida numa pequena propriedade de três tarefas de terra do povoado Sítio das Pombas, também conhecido como São José das Pombas, parte do município de São João do Cariri, na Paraíba? Agora, século XXI, São José das Pombas se emancipou, ganhou autonomia política e se transformou no município de Parari, a mais pobre das cidades do Estado da Paraíba. Parari continua 250 quilômetros distante de João Pessoa e do porto de Cabedelo. A pequena Sônia veio ao mundo no ano de 1918, 13 anos antes da seca que devastou os sertões do Norte do Brasil entre 1931 e 1934. Um tempo no qual o conceito de Nordeste ainda não estava posto em nenhum discurso. Se a vida já era difícil para sua família, tudo ficou pior em meio a estiagem. Quando as chuvas cessaram, seu pai, Romildo, já fora convocado para a prestação de contas final, destino de todos. Morrera no mesmo ano do na...

ECOS DA PANDEMIA, REDES SOCIAIS E DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Não obstante os muitos estudos produzidos durante e após o período da Pandemia do Covid 19, ainda há muito a estudar e aprender. Contudo, algumas certezas e determinadas marcas do período pandêmico ficaram na vida de todos nós, não sei se para sempre, mas, certamente, aqui estarão durante muitos anos. Ninguém duvida que o avanço tecnológico nos colocaria como partícipes de reuniões e encontros virtuais. Da mesma maneira, claro está que tal processo tecnológico foi muito acelerado pelo processo pandêmico e mesmo os mais resistentes tiveram que se curvar diante das plataformas digitais de encontros virtuais e aprenderam velozmente a utilizá-las. O mundo intensificou o seu funcionamento remoto, todos nós nos habituamos a isto e, atualmente, as mídias postas à nossa disposição pela rede mundial de computadores ocuparam amplos espaços que anteriormente pertenceram à mídia impressa e a emissoras de rádio e televisã...

TRIBUTO A THAIS BEZERRA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Nasci no dia 28 de agosto. Passados 22 anos após o dia em que eu nasci, a mais importante colunista social de toda a história da mídia em Sergipe publicou a sua primeira coluna, GENTE JOVEM, no jornal GAZETA DE SERGIPE, a convite do nosso amigo comum Jorge Lins e sob a orientação do jornalista Ivan Valença, então editor daquele importante periódico impresso. Hoje estou aqui para homenagear a memória de Thais Bezerra. A partir do seu trabalho, dediquei alguns anos da minha vida à pesquisa e me debrucei a estudar o fenômeno da coluna social em Sergipe, inspirado pelo meu olhar curioso e pelas observações que sempre fiz a respeito do trabalho da jornalista inspiradora que ela foi.       O estudo, inicialmente dedicado ao trabalho de Thais Bezerra se ampliou, e no início do ano de 2023, resultou na publicação do livro MEMÓRIAS DO JORNALISMO E DA COLUNA SOCIAL, pela Editora Criação.   ...