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DR. PAÇOCA, O ESCULÁPIO

  Jorge Carvalho do Nascimento     Miguel Ferreira Lopes era o verdadeiro nome do Dr. Paçoca. O prosaico apelido ele recebeu em 1952, em Salvador, quando cursava o segundo ano da prestigiosa Faculdade de Medicina da Bahia e foi atropelado ao sair completamente bêbado, as duas da madrugada, do conhecido Cabaré Tabaris, na rua Chile. Ao volante do Plymouth 51 preto responsável pelo atropelamento estava o Dr. Martins Fernandes, seu professor de Histologia. Como o estudante, o mestre também acabara de sair de uma noitada de orgias no Tabaris, onde consumira alentadas doses de conhaque, a sua bebida predileta. O mestre reconheceu o discípulo vítima do atropelamento. Desceu do carro, apanhou o estudante em seus braços, o acomodou no banco traseiro e seguiu para o novo e bem equipado Hospital das Clínicas, inaugurado em 1948. O estado de saúde do estudante Miguel não era dos melhores. Chegou ao nosocômio desacordado, o que fez com que os médicos que o atenderam suspeitassem da p...

O NARRADOR, A FICÇÃO, A VIDA REAL

  Jorge Carvalho do Nascimento   Os talentos de José Vasconcelos do Anjos, o Zeza, vieram bem embalados pelo manto da discrição. Pouco se sabe sobre o seu entusiasmo de pianista, artista plástico e gourmet. O piano foi o instrumento musical ao qual se dedicou desde a infância. É grande o encantamento que ele possui pelo jazz e pelo blues, certamente aprimorado durante a temporada juvenil que viveu nos Estados Unidos da América. De volta a Aracaju, estudou Medicina na Universidade Federal de Sergipe. Médico do trabalho e homeopata qualificado, angariou o respeito dos colegas e daqueles que necessitavam dos seus serviços profissionais. Exerceu a profissão com zelo e competência, conquistou pacientes que lhes foram fiéis. Diariamente, exerceu a clínica por mais de 30 anos, até se aposentar. Durante a infância escreveu poemas e como estudante universitário começou a sua atividade de contista, participando de alguns concursos literários nos quais foi finalista. À medida que se apro...

HOMENAGEM A CARLOS MONARCCHA

    Jorge Carvalho do Nascimento     Quando eu ingressei na Pontifícia Universidade Católica – PUC de São Paulo, em 1983, iniciando o Mestrado em Filosofia da Educação, quatro colegas chamavam a atenção de toda turma pelo brilho das posições que assumiam: Paulo Ghiraldelli Junior, Luiz Carlos Barreira, Lino Castellani Filho e Carlos Roberto da Silva Monarccha. Os quatro se transformaram em influentes estudiosos e pesquisadores da Educação brasileira. Um deles, Paulo Ghiraldelli, se desgarrou das reflexões educacionais e ampliou os seus horizontes pelo campo da Filosofia e da Ciência Política. Ocupou significativo espaço nas redes da internet quando os blogs se transformaram em espaço de comunicação relevante. Luiz Carlos Barreira fez uma carreira competente como professor e pesquisador. Lino Castellani, a partir da sua posição de professor e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, exerceu grande influência no campo da História da Educação Física n...

A MORTE E A MORTE DO MONSENHOR CARVALHO

  Jorge Carvalho do Nascimento     Os humanos costumam fugir da única certeza que a vida nos possibilita: a morte. É ela que efetivamente realiza a lógica da vida. Vivemos para morrer. O problema que se põe para todos nós diz respeito a como morrer. A minha vida, a das pessoas que eu amo, a daqueles que não gostam de mim e dos que eu não aprecio vai acabar. Morreremos. Podemos mitologizar a morte, encontrar uma vida eterna no Hades. Pouco importa se a vida espiritual nos reserva o paraíso ou o inferno. Passaremos pela putrefação da carne ou pelo processo de cremação. O resultado será o mesmo - retornar ao pó. O maior de todos os problemas é o do desembarque. Transformamo-nos em pessoas que interagem menos e gradualmente perdemos a sensibilidade dos afetos. A decadência é dolorosa para os amigos que ficam, do mesmo modo que para os velhos quando são deixados sozinhos. Isolar precocemente os velhos e enfermos é fato recorrente, próprio da fragilidade e das mazelas da socied...

O CHOQUE

  Jorge Carvalho do Nascimento     Aos 42 anos de idade, Vilson ainda estava em plena forma, com sua atividade hormonal fervilhando. Buliçoso, inteligente, bom papo, era uma espécie de come quieto. De mansinho, vivia assediando as mulheres com inteligência. Sensível e sonso, fingia não ter interesse pela fornicação, buscando sempre se apresentar como aquele bom amigo com o qual as pessoas podem se abrir. Professor da Universidade Federal do Vale do Japaratuba – Univaj, passava os dias na sua sala recebendo alunos, alunas, colegas professores e colegas professoras. Com fama de homem equilibrado e estudioso, experiente em pesquisa e na gestão universitária, Vilson já havia passado por diferentes posições no serviço público federal, estadual e municipal, em Japaratuba, Aracaju, Capela, Viçosa (Minas Gerais), Natal (Rio Grande do Norte), Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Era economista conceituado e com boa reputação como autor de projetos acadêmicos, sempre aprovados por...

VITA BREVIS – AGORA, NILZO LIMA

                                                         Jorge Carvalho do Nascimento     Na semana que acaba de se encerrar uma amiga que acompanha minhas publicações nas redes sociais comentou comigo que os meus textos viraram um obituário permanente. No primeiro momento eu fiquei chocado com o comentário. Logo depois, relaxei e me dei conta que, de fato, eu sou um sexagenário. Não tem como negar, vai ficar pior. Ter mais de 60 anos de idade significa perder amigos. A gente perde amigos porque a idade tende a nos fazer intolerantes, intolerantes angustiados. O calor das ideias e do temperamento que nos evolvia em discussões juvenis são trocados pela racionalidade que busca uma harmonia que nos faz enfadonhos. A nossa conversa fica cada vez mais chata, mais repetitiva. Com sua impulsividade e seus hormônios fervilhantes, os mais jove...

GILVAN ROCHA E A MEMÓRIA POLÍTICA SILENCIADA - III

    Jorge Carvalho do Nascimento     Ginecologista e cancerologista nascido na cidade de Propriá em 1932, João Gilvan Rocha saiu da sua bem frequentada clínica para a candidatura ao Senado, sem nunca haver disputado anteriormente qualquer eleição e foi enfrentar o chefe político mais tradicional de Sergipe, Leandro Maciel. Professor da Universidade Federal de Sergipe e médico formado pela Universidade Federal da Bahia, Gilvan era muito querido pela elite de Sergipe, mantinha o melhor consultório privado de Ginecologia do Estado, no Hospital Santa Izabel, e era também conhecido por algumas incursões que costumava fazer periodicamente na área artística. No dia 07 de junho de 2008 entrevistei o engenheiro civil Luiz Antônio Mesquita Teixeira que atuava nos bastidores do MDB, ao lado dos seus irmãos, José Carlos e Tarcísio, e do seu pai, Oviedo Teixeira. O discurso de Luiz Antônio ajudou a esclarecer muito a respeito da imagem que tinha de Gilvan Rocha a sociedade sergip...

GILVAN ROCHA E A MEMÓRIA POLÍTICA SILENCIADA - II

    Jorge Carvalho do Nascimento     Indiscutivelmente, a televisão foi preponderante no resultado das eleições realizadas em 1974, quando a ditadura militar celebrou o décimo ano governando o Brasil. A oposição, sabemos, conquistou 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado Federal. A eleição em Sergipe do médico Gilvan Rocha como senador foi marco na história política do Estado. Entendê-la requer que se lance um olhar mais acurado sobre o papel da TV naquela campanha. Uma das consequências da eleição do senador Gilvan Rocha e mais 15 senadores emedebistas nas eleições de 1974 foi a edição, em 1977, do chamado Pacote de Abril. Para evitar um novo resultado adverso em 1978, o presidente Ernesto Geisel, com o seu Pacote, criou a figura do “senador biônico”. O chamado Pacote de abril estava contido na Emenda Constitucional número oito e em seis decretos-lei. O artigo 13 da Constituição Federal foi alterado, estabelecendo que do Colégio Eleitoral encarregado de eleger ...

GILVAN ROCHA E A MEMÓRIA POLÍTICA SILENCIADA

      Jorge Carvalho do Nascimento     Silenciosamente, sem que ninguém tenha até agora registrado, o ano de 2025 marca os 50 anos do início do mandato como senador da República do médico, artista plástico, chargista e membro da Academia Sergipana de Letras, João Gilvan Rocha. Simplesmente Gilvan Rocha, o surpreendente vitorioso das eleições parlamentares de 1974 em Sergipe, derrotou um dos mais importantes dentre os “caciques” da vida pública sergipana, o ex-governador e ex-senador, antigo líder da UDN, Leandro Maciel. Gilvan foi eleito em 1974, o ano em que a ditadura militar brasileira completou 10 anos. Tudo, aparentemente corria bem para os ditadores que se aboletaram no poder depois da deposição do presidente João Goulart em 1964. Mas, aquele ano de 1974 não terminou bem para eles. O governo conheceu um retumbante desastre eleitoral. Nas eleições de 15 de novembro, o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, partido de oposição, conquistou 16 das 22 cadeira...