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JACKSON DA SILVA LIMA E A HISTÓRIA DA LITERATURA SERGIPANA



 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Quando Jackson da Silva Lima concebeu a História da Literatura Sergipana não planejou apenas escrever um livro. Ele planejou um projeto grandioso que resultaria numa obra em oito volumes. Do planejamento inicial apenas os dois primeiros volumes foram publicados. Em 2026 estamos celebrando os 55 anos de publicação do primeiro volume e os 40 anos do volume II.

Todavia, os dois primeiros volumes se transformaram em uma obra de referência para estudar sistematicamente a produção literária em Sergipe. Jackson não faz apenas um inventário de escritores e de livros. Ele analisa o processo de formação do campo literário em Sergipe, demonstrando como emergem autores, obras, periódicos, movimentos literários, ambientes intelectuais e as relações dos sergipanos com outros espaços da literatura brasileira.

Jackson está colocado em uma linha de estudos sobre a Literatura Sergipana na qual é importante o trabalho de Sílvio Romero e sob uma tradição que inclui antologias e muitos estudiosos locais. Todavia, ele deu um passo para além por se aprofundar na construção de uma história literária, por estabelecer períodos, analisar contextos e estabelecer conexões entre autores.

Em texto que publicou no portal Infonet, no dia 25 de setembro de 2004, “Ioio Pequeno e Várzea Grande”, Luiz Antônio Barreto afirma a inexistência de uma bibliografia sergipana à qual se possa recorrer, destacando que há esforços individuais. “Da literatura, por exemplo, o que tem de mais completo é a História da Literatura Sergipana, de Jackson da Silva Lima, projeto de 8 volumes, dos quais saíram apenas 2”. Luiz Antônio aprofunda a sua análise em outro texto publicado no mesmo portal, no dia 26 de novembro de 2007: “Jackson da Silva Lima, um Escritor e sua Obra”.

Além dos muitos textos de Luiz Antônio Barreto sobre Jackson da Silva Lima, seu amigo e parceiro de muitos trabalhos, também vale a pena citar, dentre os estudos que se debruçaram sobre a sua obra, a dissertação de mestrado O Lamento das Severinas: Relações de Gênero no Romanceiro Sergipano, de Antônio Marcos dos Santos Trindade, defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, em 2015.

SOBRE JACKSON

O bacharel em Direito, pesquisador, escritor, folclorista e crítico literário Jackson da Silva Lima nasceu e foi batizado em Aquidabã, no estado de Sergipe, no dia 26 de novembro de 1937, apesar de ser registrado civilmente como natural da cidade de Aracaju. José de Oliveira Cruz, o seu pai, era alfaiate, enquanto a sua mãe, Perolina da Silva Lima, foi operária de fábrica antes do casamento.

O menino Jackson estudou até a primeira série ginasial no Colégio Tobias Barreto, em Aracaju, onde foi aluno entre os anos de 1945 e 1949. A partir da segunda série ginasial, em 1950, foi matriculado no Atheneu Sergipense, onde estudou até a conclusão do curso científico, em 1957.

Aluno da Faculdade de Direito de Sergipe, colou grau na turma de 1963. Em 1969 ingressou no curso de Letras da Universidade Federal de Sergipe, mas interrompeu os estudos na área em 1970, depois que concluiu o segundo ano.

Jackson trabalhou como professor de Literatura Luso-Brasileira no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, em 1964, além de haver lecionado Gramática Portuguesa em cursos pré-vestibulares preparatórios aos cursos de Direito, Letras e Serviço Social, entre 1964 e 1968.

Foi também funcionário concursado dos Correios e Telégrafos, entre 1960 e 1967. No mesmo ano de 1967 ingressou nos quadros da Seção Judiciária do Estado de Sergipe da Justiça Federal, onde foi Diretor da Secretaria Administrativa até a sua aposentação, em maio de 1990.

Depois disto foi Diretor do Instituto de Memória e Documentação da Secretaria de Estado da Cultura (1995-1997). Ao Instituto estavam subordinados a Biblioteca Pública Epifânio Dórea, o Arquivo Público do Estado de Sergipe, os Museus de Laranjeiras e São Cristóvão.  Exercendo tal responsabilidade, recuperou e reorganizou o acervo da Biblioteca, inclusive identificando e agrupando o acervo bibliográfico que pertenceu ao escritor sergipano Sílvio Romero.

A lei 9.097, de 2022, instituiu o Dia da Literatura Sergipana, 26 de novembro, data em que se comemora o aniversário de nascimento de Jackson da Silva Lima.

É vasto o acervo bibliográfico assinado por Jackson da Silva Lima. Cito aqui alguns trabalhos que considero os mais relevantes, os da minha preferência:

- História da Literatura Sergipana. Vol. I. Aracaju: Livraria Regina Ltda, 1971. A segunda edição, revista e ampliada, foi publicada em 2023 pela Editora SEDUC.

- História da Literatura Sergipana. Vol. II. (Romantismo). Aracaju: Fundesc, 1986.

- Alamedas de Sonhos Impossíveis (Poesia). Aracaju: Gráfica J. Andrade Ltda, 1972.

- Ilustração do Cordel em Sergipe. Aracaju: Comissão Sergipana de Folclore, 1976.

- O Folclore em Sergipe. Vol. I (Romanceiro). Rio de Janeiro: Editora Cátedra/Brasília: INL, 1977.

- Os Estudos Antropológicos, Etnográficos e Folclóricos em Sergipe. Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, 1984.

- O Mecanismo Linguístico das Empulhações. Aracaju: Repertório Cultural, 1986 (Separata da Revista de Aracaju, 1986).

- O Poeta Santo Souza (Simbologia e Dicção). Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe/Fundação Augusto Franco, 1989.

- O Cão na Moita (ficção). 1ªed. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1989.  A segunda edição também foi publicada em Aracaju, no ano de 1997, pela Gráfica Editora J. Andrade Ltda.

- Os Estudos Filosóficos em Sergipe. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1995.

- O Monobelo (ficção). Aracaju: Gráfica J. Andrade Ltda, 1997.

- A Biblioteca de Sílvio Romero (Descoberta e Reativação). Aracaju: UNIT (Rev. Fragmenta), 1999 (Separata).

O PROJETO

Para definir o projeto da História da Literatura Sergipana, Jackson da Silva Lima trabalhou durante cinco anos, entre 1965 e 1970, realizando um minucioso levantamento documental e bibliográfico. Foi o ponto de partida para delinear uma obra em oito volumes. Como sabemos, somente os dois primeiros entraram em circulação.

Mas, chegar a esse entendimento requereu um longo esforço de pesquisa. O próprio Jackson explica: “pesquisamos autores isolados como Tobias Barreto, Fausto Cardoso, Arthur Fortes e, entre outros, José Sampaio. A partir de 1966, por sugestão do amigo Luiz Antônio Barreto, é que fizemos o trabalho em termos de uma história literária. Em 1970, nos meses de agosto a outubro, sob o apoio e incentivo da Profª. Gizelda Morais, a quem muito devo na realização desta obra, reescrevendo todo este primeiro volume, alterando-lhe a fisionomia e o conteúdo inicial (redação de 1967)” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 26).

Jackson se dispôs a investigar quando e de que maneira se formou uma literatura sergipana. Para atingir o seu objetivo, ele teve que estabelecer alguns importantes procedimentos metodológicos. Como é sabido, até 1820 Sergipe foi dependente da Bahia. Por isto, Jackson teve necessidade de estabelecer em qual momento e sob quais processos foi efetivamente possível identificar um espaço cultural e intelectual próprio que poderia receber a designação de cultura sergipana.

Tal problema esteve sempre presente nas preocupações intelectuais de Jackson da Silva Lima. Em 2020 ele publicou o ensaio Literatura Sergipana e Seus Primórdios (Presença da Protoliteratura). A categoria de análise Protoliteratura é fundante na obra de Jackson da Silva Lima.

É com ela que Jackson procura distinguir as manifestações anteriores a consolidação de um sistema literário sergipano, afirmando a existência de manifestações denotativas e conotativas. No mesmo texto, Jackson da Silva Lima analisa de modo crítico as classificações literárias feitas anteriormente por Sílvio Romero.

A concepção do projeto de Jackson demonstra que ele não queria construir uma lista biográfica de literatos sergipanos, mas, sim, determinar as condições históricas que permitiram o aparecimento, a maturação e o desenvolvimento de uma literatura que pode ser designada como sergipana.  Ele investigou importantes escritores sergipanos que estiveram sempre à margem das histórias nacionais da literatura brasileira.

Jackson se caracterizou como uma espécie de arqueólogo das letras. Luiz Antônio Barreto costumava dizer que Jackson da Silva Lima era inventariante da literatura e da cultura em Sergipe. A mesma formulação foi utilizada por Beatriz Góis Dantas, em 2022.

O LIVRO

O primeiro volume da História da Literatura Sergipana foi publicado em 1971 pela Livraria Regina, em edição patrocinada pela Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe. A publicação foi autorizada pelo professor Marcos Pinheiro Monteiro, à época secretário da educação do estado de Sergipe, designado pelo governador Paulo Barreto de Menezes. Foi o primeiro livro a entrar em circulação depois de criado o Fundo Cultural de Publicação de Obras Sergipanas.

Manoel Cabral Machado, autor do prefácio, afirma que o primeiro volume é, na verdade, um “volume de roteiro”, anunciando que os demais chegariam em breve. Em tal volume, Jackson demonstra a sua preocupação com as origens e a formação da literatura em Sergipe. Alguns estudiosos da obra de Jackson, como Luiz Antônio Barreto, afirmam que o volume é dedicado ao período colonial.

Todavia, o próprio Jackson, como aqui já afirmei, prefere designar o período estudado no primeiro volume como Protoliteratura. Ele reafirmou isto reiteradas vezes e, 50 anos depois da publicação do seu primeiro volume, reiterou o conceito de Protoliteratura sergipana, abrangendo o período de 1590 a 1823.

O próprio Jackson esclarece o seu plano de trabalho, por inteiro: “Deste 1º volume, como introdução, procuramos conceituar a literatura sergipana (Cap. I), assinalar os seus antecedentes históricos e fixar as suas origens (Cap. II), delinear em síntese a sua trajetória (Cap. III), salientar os seus aspectos ‘sui generis’ (Cap. IV), enfim estabelecer-lhe as divisões periodológicas (Cap. V). Nos capítulos VI e VII, estudamos duas fases distintas: BARROCA (autores isolados) e ARCÁDICA (formação), através das quais pomos em destaque figuras isoladas e aqueles que, de fato, contribuíram para a formação do nosso patrimônio lítero-cultural” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 26).

O segundo volume, publicado em 1986, foi dedicado a estruturação do Romantismo. Já o volume III está projetado para abordar o período da consolidação parnasiana, enquanto o quarto volume terá foco na reformulação simbolista.

Jackson revela ainda: “Nos volumes 5º e 6º, pretendemos estudar as fases NEOPARNASIANA (renovação) e PRÉ-MODERNISTA (transição).

Nos volumes 7º e 8º, cuidaremos das fases MODERNISTA (reestruturação) e PÓS-MODERNISTA (experimentação), mercê das quais há profunda revisão de forma e conteúdo em nossa literatura” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. pp. 26-27).

No artigo “Literatura Sergipana e Seus Primórdios (Presença da Protoliteratura)”, publicado em 2020 na revista Travessias Interativas, número 21, Jackson indica a existência de um livro inédito: Protoliteratura Sergipana (1590-1823). O trabalho se dedica a rever algumas das conclusões do próprio Jackson no volume de 1971 da História da Literatura Sergipana.

Para conceber a gênese da literatura sergipana, há necessidade de definir o que é um escritor sergipano. Afinal, o que é um escritor sergipano? É aquele que nasceu em Sergipe? É aquele que escreveu sobre Sergipe? É aquele que foi reconhecido pelo público leitor existente em Sergipe? É aquele que ocupou os espaços da imprensa em Sergipe? É aquele que liderou instituições culturais em Sergipe? É aquele cujos livros circularam em Sergipe?

Por tudo isto, Jackson compreendeu que não bastava apenas procurar o primeiro escritor sergipano. Todavia, tomou consciência de que era primordial identificar o primeiro escritor sergipano. Este é um dos fundamentos da categoria Protoliteratura que Jackson da Silva Lima estabeleceu em seus trabalhos mais recentes.

É no primeiro volume, desde a edição de 1971, que Jackson identifica o estanciano Constantino José Gomes de Souza como primeiro romancista sergipano. Constantino nasceu em 1825 e morreu em 1877. Jackson se debruçou sobre os romances e folhetins publicados por Constantino no século XIX. Por isto, a obra de Jackson continua a ser a principal referência para os que desejam conhecer o papel desempenhado por Constantino no período oitocentista.

Jackson confere muita importância não apenas a Constantino, mas cita também o seu irmão Herculano Gomes de Souza, um farmacêutico formado pela Faculdade de Medicina da Bahia. Menciona ainda José Maria Gomes de Souza, poeta condoreiro, irmão de Constantino por parte de pai.

Todavia, Jackson tem o cuidado de advertir que o reconhecimento não significa ser Constantino uma espécie de fundador da Literatura Sergipana. Esclarece que não é um único fato ou acontecimento que define como e quando surgiu a Literatura em Sergipe. É necessário prescrutar causas e consequências sociais e históricas que revelaram a presença do fenômeno literário em nossa terra.

Jackson acrescenta que “Os poucos que se deram ao trabalho de estudar de relance a nossa literatura desde as suas primeiras manifestações, cingiram-se tão somente à poesia, não tomando conhecimento da prosa em seus diversos aspectos” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. pp. 49-50).

Ele cita importantes nomes como Lima Junior, Sílvio Romero, Prado Sampaio e Magalhães Carneiro como aqueles que primeiro reconheceram na pessoa e na obra de Constantino Gomes o marco inicial das manifestações literárias em Sergipe, “arrimando-se quase todos na publicação do seu livro ‘Hinos da Minh’Alma (1851)’” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 50).

Ele cuida de advertir também que Oliveira Teles estabeleceu como ponto de partida para a Literatura sergipana a emancipação política de Sergipe, entre 1820 e 1824, enquanto Nobre de Lacerda optou pelo ano de 1832, marco da fundação da imprensa. Já o historiador Sebrão Sobrinho estabeleceu dois eventos como fundantes da nossa literatura: a publicação da obra de Joaquim Maurício Cardoso, em 1829, e a circulação do Recopilador Sergipano, o nosso primeiro jornal, em 1832.

Jackson esclarece: “Nenhum desses quatro critérios, ou quaisquer outros tomados isoladamente, poderá esclarecer a contento o aparecimento do fenômeno literário em nosso meio, nas primeiras décadas do século passado” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 49).

Sob tal perspectiva é relevante afirmar que Jackson concebeu metodologicamente critérios originais próprios para a periodização da História da Literatura Sergipana. E isto é uma das questões importantes do seu trabalho como pesquisador.

Como ponto de partida rejeitou a periodização recorrentemente utilizada nos estudos de História da Literatura no Brasil, que estabelece períodos sequenciais: Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Simbolismo e Modernismo.

Ele poderia ter apanhado tal periodização e buscar em Sergipe intelectuais para colocar em cada uma dessas caixinhas. Todavia, preferiu se debruçar sobre as condições culturais sergipanas, identificando as suas diferenças em face do contexto nacional.

Jackson apanhou a categoria espaço-cultura para conduzir a sua análise. Afirmou que as peculiaridades históricas, econômicas, geográficas e institucionais sergipanas produziram um desenvolvimento literário original, peculiar, próprio. Demonstrou que algumas correntes literárias nacionalmente consolidadas não conseguiram se estruturar em Sergipe. Por isto a História da Literatura Sergipana de Jackson da Silva Lima não se reduz a um apêndice periférico da história da literatura brasileira.  

Ainda em relação a Constantino Gomes, diz Jackson da Silva Lima que Hinos da Minh’Alma, publicado em 1851, e citado como trabalho fundante, é, na verdade, o seu segundo livro. “Três anos antes (1848), dera ele a lume ‘Prelúdios Poéticos’, livro com o qual estreara na literatura. Pelo menos dever-se-ia levar em conta não o segundo mas o primeiro trabalho impresso, onde já se vislumbra o seu talento, a força de inspiração do seu estro” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 49).

A ênfase dada pelos estudos de Jackson da Silva Lima sobre Constantino José Gomes de Souza continua a produzir importantes consequências. Em 2025, a Universidade Estadual de Campinas retomou os estudos realizados por Jackson e informou a publicação em livro de um romance oitocentista do sergipano.

A edição de sete de julho de 2025 do Jornal da Unicamp revela que “A editora-escola do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, Asa da Palavra, publicou a primeira versão em livro do romance Arycurana, passados 150 anos da publicação original, realizada no formato de folhetim do século 19” (Jornal da Unicamp. Campinas, 7 de julho de 2025 – jornal.unicamp.br).

A obra de Constantino é vasta e continua a ser objeto do interesse de muitos pesquisadores de literatura e de história:

(Poesia)

1848 – Prelúdios Poéticos

1851 – Hinos da Minh’Alma

(Teatro)

Espectro da Floresta

Os Três Companheiros de Infância

Há Dezessete Anos ou A Filha do Salineiro

O Enjeitado

Vingança por Vingança

Gonzaga

(Romance)

1871 – O Desengano

1873 - A Filha sem Mãe

1873 – O Grumete

1874 – Arycurana

Publicação Póstuma – O Cego (Deixado incompleto em razão da morte do autor)

Na segunda edição do volume I da História da Literatura Sergipana, publicada em 2022 pela Editora SEDUC, Jackson escreveu o texto “Cinquenta e Um Anos Depois (2022)” (pp. 11-13), explicando que resolveu acrescer o que designou como “Suplementos à 1ª Edição (1971)”. São três apêndices (I, II e III). O primeiro tem por título “Literatura Sergipana e Seus Primórdios (Presença da Protoliteratura)”; “Protoliteratura Sergipana (Conceito e Delimitações)” é o Apêndice II; o último foi designado por Jackson como “Textos Protoliterários Seiscentistas. Uma Coletânea Pioneira (1610-1619)”. O propósito dos Apêndices foi o de preencher as lacunas que o próprio Jackson identificou em sua obra acerca das origens da literatura sergipana desde a colonização.

Ao estudar a Protoliteratura, Jackson da Silva Lima identifica as manifestações que antecederam a existência de um sistema literário plenamente constituído em Sergipe e acompanha todo o processo a partir do período colonial.

Ele retoma os comentários críticos que faz a Sílvio Romero no volume I da sua História da Literatura Sergipana (pp. 84-87). Jackson questionou a classificação do crítico lagartense nos dois volumes da obra O Parnaso Sergipano ao organizar os poetas de Sergipe em grupos vinculados a chefes intelectuais: “Essa obra seria a melhor tentativa de sistematização dos poetas conterrâneos se a distribuição nela contida correspondesse à nossa realidade literária. O que, infelizmente, não ocorre. Sílvio Romero distribui os poetas sergipanos em quatro grupos distintos, chefiados, respectivamente, por Constantino Gomes, Tobias Barreto, o próprio antologista e João Ribeiro” (História da Literatura Sergipana. Volume I, 2ª Ed. p. 85).

Todavia, Jackson reviu algumas das suas posições críticas iniciais ao colocar em circulação o artigo “Literatura Sergipana e Seus Primórdios (Presença da Protoliteratura)”, publicado em 2020 na revista Travessias Interativas, número 21, aqui já citado. Em tal artigo ele afirma: “Hoje, tenho minhas dúvidas sobre esse meu antigo entendimento”.

Em relação ao volume I da História da Literatura Sergipana, é ainda importante chamar a atenção para o fato de que para Jackson, a poesia imediatamente anterior ao Romantismo é uma fase de transição. Portanto, algumas características dos poetas anteriores teriam se acentuado na obra de Constantino José Gomes de Souza.

O volume II, dedicado ao Romantismo, entrou em circulação 15 anos depois, em 1986, quando João Alves Filho era o governador do Estado de Sergipe e a Fundação Estadual de Cultura – Fundesc tinha como presidente a professora Núbia Marques. O próprio Jackson afirma, no segundo volume que aquela publicação era devida a insistência de Núbia.

O Romantismo é muito importante na abordagem utilizada por Jackson da Silva Lima. O autor identifica o jornal União, publicado em Estância, a partir de 1852 como o elemento mais importante no processo de consolidação do Romantismo sergipano.

Destaca a presença em Estância do poeta Joaquim Esteves, em 1854, e de Constantino Gomes no período que vai de 1855 a 1857. O trabalho de ambos teria deixado marcas definitivas na literatura romântica sergipana. Deste modo, Constantino teria sido uma espécie de elo de ligação entre o Romantismo e o período anterior da literatura em Sergipe.  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A leitura dos dois volumes já publicados e dos trabalhos que Jackson colocou em circulação nos anos subsequentes revela que a História da Literatura Sergipana nunca deve ser vista como obra definitiva. O autor continua pesquisando e estudando até hoje, disposto a fazer algumas reformulações quanto ao seu entendimento.

A História da Literatura Sergipana é um projeto ousado, no qual Jackson da Silva Lima vem trabalhando por mais de meio século. Quando avaliamos o plano de oito volumes elaborado por Jackson, percebemos que no contexto da Literatura Sergipana ainda temos muito a aprender sobre autores como Oliveira Campos, Joaquim Inocêncio, Braz Diniz, Frei Santa Cecília, Constantino José Gomes de Souza, José Maria Gomes de Souza, Pedro de Calasans, Bittencourt Sampaio, Tobias Barreto, Sílvio Romero, João Ribeiro, Severiano Cardoso, Jason Valadão, Eliziário da Lapa Pinto, Alves Machado, Antônio Diniz Barreto e Prado Sampaio, para citar apenas estes que já aparecem nos dois volumes publicados.

Nos volumes inéditos, há muito a aprender acerca das contribuições de Heribaldo Vieira, Carlos Fontes, João Passos Cabral, Maria Rita Soares de Andrade, Abelardo Romero e José Maria Fontes, principalmente quando o foco repousa sobre o Modernismo em Sergipe.

Um dos méritos mais relevantes da pesquisa realizada por Jackson da Silva Lima, para além das contribuições já aqui citadas, foi recuperar personagens do universo intelectual sergipano que foram secundarizados na historiografia literária brasileira e também em Sergipe.

A obra de Jackson da Silva Lima é seminal para a História da Literatura Sergipana. É possível afirmar que ele produziu uma história social da literatura sergipana. A sua História da Literatura Sergipana estimulou a produção de uma fortuna crítica que é copiosa. Vale a pena se debruçar sobre ela. Pena que o espaço desta conferência não permite o aprofundamento.

Mesmo assim, registramos o trabalho publicado por Luiz Mott, em 1977, na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Mott produziu uma resenha crítica da História da Literatura Sergipana (Revista IEB. n.19. p. 12-31. São Paulo, 1977. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i19p96-97).

O problema essencial para a continuidade da coleção de oito livros projetada por Jackson é editorial e institucional. Não é por ausência de pesquisa que a obra até agora não foi publicada por inteiro. Devemos a sua publicação à cultura do estado de Sergipe e a dedicação do seu autor, Jackson da Silva Lima.

Por fim, afirmo que a capacidade de trabalho e a criatividade de Jackson concebeu outros projetos de grande envergadura como inventários documentais da cultura sergipana. O Folclore em Sergipe foi um projeto concebido para ser publicado em 12 volumes. O primeiro deles, Romanceiro, foi publicado em 1977. Os demais permanecem inéditos.

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