Pular para o conteúdo principal

O VARADOURO


  

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Sônia percebeu, ao ser acordada por Dadá, que esta tinha o cenho franzido e não carregava no rosto aquele sorriso largo e animador que a caracterizava. Alguma coisa não estava indo bem. Sônia não conseguira atinar bem o que era, mas alguma coisa estava fora da ordem.

- Não se assuste. Levante-se, cuide do seu asseio, troque de roupa, tome seu café e depois eu vou lhe mostrar uma coisa importante – falou Dadá.

- Deve ser alguma coisa muito séria. Sua cara não mente. Dá pra ver que você está apavorada. Eu vou botar uma roupa e a gente vai ver agora – Sônia se vestiu rapidamente e acompanhou Dadá até a porta da sua casa.

As paredes estavam cobertas de frases escritas com carvão, durante a madrugada.

- Puta! Vá embora daqui! Assassina! Você matou dois padres e um juiz. Aqui é lugar de família. Vá embora, puta.

Sônia percebeu o clima de hostilidade contra ela que se instalara em Cabedelo. Entrou em casa aos prantos e começou a fazer um exame de consciência. Três anos antes era uma menina miserável que vivia em São José das Pombas, morava numa tapera e não tinha o que comer.

O desespero da sua mãe, Dona Valentina, fez com que ela, aos 13 anos de idade, e sua irmã Ana, com 14 anos, fossem viver num puteiro, o Bazar de Dona Clarice. Ali sofreu, foi humilhada, obrigada a fazer as concessões do sexo oral sob o cano da arma do Coronel Coelho.

Mas, ali também encontrou o amor do tórrido romance que viveu com o mascate Orozimbo. Com ele descobriu o afeto masculino. Ao lado daquele homem bonito, elegante e cheiroso descobriu a delicadeza e a generosidade dos homens. Com Orozimbo se entregou pela primeira vez aos melhores prazeres do sexo e conheceu as loucuras mais fascinantes.

Foi tal amor que lhe permitiu ampliar os horizontes da sua vida. Não apenas os geográficos, mas principalmente os mentais. Com ele descobriu a beleza e a crueldade do mundo, com ele descobriu que qualquer distância pode ser vencida. Orozimbo lhe mostrou que a vida é bela, mas perversa.

O amado criou as condições para que ela pudesse viver com dignidade em Cabedelo. Deu-lhe casa boa e mobiliada, a vestiu bem e com muito refinamento e elegância. Orozimbo foi a fonte de financiamento que lhe garantiu uma vida luxuosa e confortável no dia a dia.

Em Cabedelo, a sensibilidade do Frei Fernando a tocou e permitiu que ela descobrisse a beleza existente nas coisas triviais, como um simples passeio pelas areias da praia e o voluptuoso estímulo que desperta a fome de sexo com um simples mergulho na água salgada.

O convívio entre a luxúria e os perigos dos prazeres da vida foram desvelados a Sônia pelo Padre Galo e pelo desembargador Elífio. Foi o bom da vida e as maldades do mundo que fizeram Sônia subir bem alto e agora ela via a escada desaparecer, ficando sem qualquer base de sustentação.

Corria o ano de 1935 e ela estava ali, aos 16 anos de idade, carregando na barriga que já crescia visivelmente um filho adulterino do desembargador. Não tinha mais o afeto, o dinheiro, os presentes e os estímulos intelectuais de Orozimbo. Havia deixado escapar entre os dedos o amor, a sensibilidade e o refinamento intelectual do Frei Fernando.

Não permitiu que o Padre Galo se aproximasse e a ganância a levou a engravidar e a perder tudo com a tragédia que se abateu sobre a sua vida depois do seu envolvimento com o Desembargador Elífio, o pai da criança bastarda que carregava no bucho. Ao seu filho, ela precisava garantir algum tipo de futuro.

Como se tanta desgraça fosse pouco, Sônia era agora persona non grata em Cabedelo, símbolo da devassidão, da orgia, da destruição das famílias e da criminalidade que se abateu até sobre a Igreja Católica. Não tinha mais como permanecer naquele lugar. Decidiu que o ciclo de Cabedelo deveria se encerrar.

Foi direto ao escritório de Felipe Neves, o mesmo agiota que vendeu a Orozimbo a casa que recebera de presente.

- Estou indo embora de Cabedelo e pretendo vender a minha casa. Quero saber se você tem interesse em adquirir o meu imóvel – afirmou Sônia.

Felipe Neves, agiota experiente, sabia reconhecer quando alguém estava em apuros e não perdia ocasião. Avaliou a casa de Sônia por preço vil, sabendo que a ela a única alternativa possível era a de aceitar a extorsão e vender por qualquer preço para sair daquela local onde não tinha sequer garantia de vida.

Quinze dias depois Sônia embarcou no trem e deu adeus para sempre a Cabedelo aonde nunca mais voltaria. Seus cacarecos seguiram em um carro de bois em direção ao Varadouro, área próxima do centro da cidade de João Pessoa, porém desvalorizada, ocupada por um comércio de pequeno porte, oficinas mecânicas, depósitos de indústrias e do comércio. Enfim, uma área semimarginal, com suas ruas desbotadas e suas casas decadentes, sem qualquer importância econômica.

Esta era a nova realidade de Sônia. Era barato morar naquele local.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O EVERALDO QUE EU CONHECI

                                                                Everaldo Aragão     Jorge Carvalho do Nascimento     Em agosto de 1975 fui procurado pelo meu inesquecível amigo Luiz Antônio Barreto para uma conversa. À época, Luiz exercia o cargo de chefe da Assessoria para Assuntos Culturais da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe e eu trabalhava como redator de noticiários da TV Atalaia, o recém inaugurado Canal 8. Luiz me fez um convite para uma visita ao Secretário da Educação e Cultura do Estado de Sergipe, Everaldo Aragão Prado. Eu não o conhecia pessoalmente. Como jornalista, eu sabia dele na condição de personalidade pública. A sua fama era de homem carrancudo, muito sisudo e rigoroso. Fiquei surpreso com o convite. Não entendi porque poderia haver da parte de Everaldo interesse em faz...

AVE CESAR! AVE GILVÂNIA!

                                                  Gilvânia Guimarães   Jorge Carvalho do Nascimento     Normalmente eu uso meus espaços na internet escrevendo textos sobre temas da História, de um modo geral, da História da Educação, da História dos Costumes, da História Política do Brasil. Não tenho o hábito de polemizar nem de falar da política contemporânea, seja para elogiar ou para criticar. Mas, hoje vou me permitir abrir uma exceção e farei dois comentários em face de decisões tomadas pelo governador Fábio Mitidieri que me agradaram como cidadão e como estudioso da política educacional e da História da Educação. A história já deu provas suficientes de que o governador Mitidieri acertou ao tomar posse em 2023 e nomear para o cargo de secretário da educação o seu vice-governador, José Macedo Sobral, o Zezinho Sobral. Nascido no município sergip...

O MEU FILME DE VERÔNICA

                                                  Verônica Maria Menezes Nunes   Jorge Carvalho do Nascimento     A minha memória mais remota me remete ao ano de 1969, na sala de aula do Atheneu, estudando com o hoje engenheiro civil Antônio Fernando Nunes. No filme que passa na minha retina surgem, ainda no Atheneu, Vera Marta que mais tarde se estabeleceu profissionalmente como professora de educação física. José Correia Nunes Filho, o Zelito, depois bacharel em direito, advogado e oficial de justiça, também é personagem quando estudante do Atheneu, sempre bem humorado e fazendo amigos. Sílvia Helena, Lauro Henrique e Geraldo Luiz, os outros irmãos de Verônica, aparecem em imagens difusas e desfocadas. Nunca estabeleci com eles uma relação de amizade mais permanente como consegui fazer com os três que citei inicialmente. O foco em Verônica Maria M...