Jorge
Carvalho do Nascimento
As
adversidades não podem sufocar o amor.
Todavia, é muito difícil evitar a autocensura e a autoamputação
sentimental quando o infortúnio nos bate à porta. Este é o foco que move o
discurso ficcional de Matheus Batalha em TABU, o seu primeiro romance,
ambientado na década de 70 do século XX, em Sergipe, sob a plenitude
efervescente da ditadura militar que sufocou o Brasil durante 20 anos, a partir
de 1964. Matheus nos conta a história de uma mulher corajosa que ama a
liberdade, ama a vida, ama as pessoas
Conheço
o escritor Matheus Batalha desde sempre. Fui amigo do seu pai, já falecido, o
músico Alberto Teixeira Nery. Agora, aos 44 anos de idade, Matheus é escritor e
professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Sergipe.
Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia, o escritor foi
premiado pelo Fundo de Inovação da Casa Branca, nos Estados Unidos da América,
e trabalhou como Professor Visitante no Departamento de Literatura e Línguas
Românicas da Universidade de Harvard.
Incorporei
o hábito de ler semanalmente as crônicas que ele publica no Jornal da Cidade e
em outros jornais e revistas. Como autor de livro, Matheus estreou em 2019
quando publicou EDUCAÇÃO PELO MUNDO: VIDA EM CRÔNICAS, reunindo as primeiras 50
crônicas que ele assinou e fez circular nos jornais.
TABU
representa uma nova fase em sua atividade de escritor, abraçando agora o campo
da ficção. Como leitor, fiquei agradavelmente surpreso com a competência
demonstrada por ele ao trazer para a sua narrativa elementos místicos e tomada
de posição política, alargando os horizontes do seu imaginário criativo. Como
afirma Matheus, “escrever é um ato de coragem, pois colocamos no papel o amor
que sentimos dentro de nós”.
Nina,
personagem central da trama, é abandonada, em 1962, por seu noivo, no dia em
que aconteceria a cerimônia de casamento. Criada em uma família conservadora do
município de Pedra Mole, no interior de Sergipe, viveu a infância e parte da
adolescência na fazenda do seu pai, o autoritário e sisudo Coronel Zé.
A
moça casadoira viu seu sonho ser frustrado no pior dos momentos, aquele no qual
estava tudo preparado para coroar o seu conto de fadas. Foi uma espécie de
adeus às ilusões. Um momento de disrupção do qual emergiu uma Nina questionadora
e decidida a ocupar o lugar que lhe cabia na sociedade.
Nesse
processo de mudança de rumo, Nina, moça de tradicional família católica,
conhece uma curandeira que lhe faz algumas previsões de futuro, dentre quais a
afirmação de que ela dedicaria a sua vida a cuidar de crianças. Logo depois
Nina acolhe Caju em sua casa. Era um menino de rua marcado por uma história de
violência.
A
presença de Caju leva Nina a criar um orfanato no qual passa a acolher crianças
que não possuem um lar. Assim toca a vida até adoecer, quando pede ao seu
irmão, Antônio, para cuidar de Caju. Advogado preconceituoso e conservador,
Antônio necessita rever muitas das suas convicções para atender o desejo
manifestado pela irmã no leito de morte.
Matheus
buscou na vida real a inspiração para construir o perfil de Nina. Aproveitou
muito da história de vida da sua tia-avó, Dona Zizi Siqueira, que criou e
dirigiu, enquanto viveu, o Lar de Zizi.
Bom
narrador, Matheus é envolvente e prende o leitor ao longo das 213 páginas da
história que conta. Mesmo tratando de questões densas, o seu discurso é
construído com leveza e valoriza os elementos da cultura da região Nordeste do
Brasil, mesmo diante das adversidades que o país conheceu durante os chamados
anos de chumbo.
O
trabalho foi publicado pela TAUP – Associação Toma Aí Um Poema, editora estabelecida
em São Paulo, que produziu um objeto em formato de livro muito bem acabado.
Merece registro a delicadeza da bonita capa criada pela advogada Cecília
Cavalcante Vieira, a bailarina Hanna Belly, com quem Matheus é casado.
Li
e recomendo.
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