Jorge
Carvalho do Nascimento
Gosto
do conceito de sergipanidade sintetizado pela professora Aglacy Mary. Ela
ensina que “Sergipanidade é o conjunto de singularidades que caracteriza o modo
sergipano de lidar com o seu patrimônio — a língua, a arte, a fé, o trabalho,
as festas —, bens comuns compartilhados com outros grupos. O que somos está
impresso em nossa alma e se expressa através da geografia que nos define, da
mistura étnica que nos deu origem, da história que nos constitui, de tudo o que
construímos e através daquilo pelo que nos encantamos”.
Não
obstante o longo debate acerca do conceito de sergipanidade, a data de 24 de
outubro somente foi reconhecida formalmente como Dia da Sergipanidade no ano de
2019, quando o projeto de lei 249 apresentado pelo deputado estadual Luciano
Bispo foi aprovado e transformado na lei 8.601.
Ao
longo do século XIX e durante todo o século XX o 24 de outubro foi uma data
polêmica aprovada por alguns e reprovada por outros como a data da Emancipação
Política do Estado de Sergipe. Em face das dificuldades de comunicação
existentes em 1820, o dia 24 de outubro foi o dia no qual os sergipanos receberam
o Ato do Rei Dom João VI que reconhecia Sergipe D’El Rey como Capitania
autônoma, rompendo por completo a dependência em face da Capitania da Bahia.
Muitos entendiam que o dia a ser celebrado era
o oito de julho, data da assinatura da Carta Régia por Dom João VI e não o dia
da chegada do ato em Sergipe, o 24 de outubro. O conflito persistiu. Na última
década do século XX, o jornalista e escritor Luiz Antônio Barreto assumiu a
defesa do debate aceca da sergipanidade, bandeira que este defendera ao lado de
intelectuais como Antônio Garcia Filho, José Anderson Nascimento e Jackson da
Silva Lima, dentre outros.
Foi
tal consciência que possibilitou o trabalho de revitalização dos grupos
folclóricos e das manifestações dos folguedos populares de Sergipe, coordenado
pelos mesmos Luiz Antônio, Antônio Garcia, Anderson e Jackson da Silva Lima a
partir da década de 70, quando eles organizaram o Encontro Cultural de
Laranjeiras.
O
Encontro Cultural de Laranjeiras foi um momento importante de retomada da
cultura popular do Estado de Sergipe. O último grande momento foi o da
inauguração do Largo da Gente Sergipana, quando Jackson Barreto de Lima
governava Sergipe e ergueu o primeiro monumento destinado a celebrar a cultura
do povo.
O
projeto é de autoria do arquiteto e urbanista Ézio Déda com esculturas de sete
metros de altura criadas pelo artista plástico Tati Moreno. Num primeiro
momento a obra foi alvo de polêmicas em nome da defesa de determinadas posições
políticas. As críticas expressaram posições que negaram a importância daquele
monumento para a História do povo sergipano, negando a importância da cultura
popular. Revelaram um tipo de ignorância seletiva que desconheceu a força
simbólica das manifestações populares.
O
Largo da Gente Sergipana resistiu a todo tipo de crítica e é atualmente o
monumento de Sergipe mais fotografado por turistas e por sergipanos que se
encantam, além de ser a celebração mais visível a homenagear a cultura do povo
de Sergipe. Ali estão os registros do Lambe Sujo e Caboclinhos; dos
Bacamarteiros; do Cacumbi; dos Parafusos; do Reisado; da Chegança; da Taieira;
da Dança de São Gonçalo; e do Barco de Fogo estanciano.
Agora,
no próximo dia 31 deste mês de outubro, a Prefeitura de Aracaju, por iniciativa
do Secretário Municipal de Cultura, Paulo Correia, devidamente autorizado pela
Prefeita Emília Correia, vai homenagear a memória do escritor, jornalista e
folclorista Luiz Antônio Barreto que muito lutou pelo reconhecimento da
sergipanidade.
O
Centro Cultural de Aracaju, na Praça General Valadão, será transformado em
Palácio-Museu Luiz Antônio Barreto e na sua entrada ocorrerá a inauguração de
uma estátua em tamanho natural do homenageado. Sobre o novo monumento,
recomendo a leitura do texto do jornalista Jozailto Lima, publicado ontem, 23
de outubro de 2025, no seu portal JL POLÍTICA E NEGÓCIO.
A
consciência de ser sergipano, o orgulho do pertencimento e de identificação com
uma cultura própria foi um processo que começou a ganhar seus contornos com a
emancipação política de Sergipe. Recorro novamente a Luiz Antônio Barreto para
afirmar que, em seus estudos, aquele intelectual identificou os elementos
conformadores de tal consciência nas suas origens.
Segundo
ele, “Com a emancipação, as vilas cresceram, surgiram as cidades e rapidamente
o progresso deu a Sergipe uma nova condição”. É possível encontrar nos jornais
registros que dão conta das apresentações dos grupos folclóricos no 24 de
outubro, desde o Império, como forma de celebrar a cultura sergipana que buscou
se distinguir dos traços culturais próprios a província da Bahia.
Falar
de sergipanidade, portanto, é não apenas dar conta do processo que identificou
um povo e o seu território, mas também tratar da identidade que lhe é própria,
cuidando de compreender a sua literatura, a sua música, os seus hábitos
alimentares, as suas formas de se vestir, de trabalhar, de morar, de organizar
o espaço urbano, de cuidar das cidades, de educar, de transmitir as práticas
culturais, de sentir, de amar, de viver e morrer, enfim de ser e estar no
mundo.
Hábitos
como o de tomar banho de mar na praia de Atalaia e nas inúmeras praias que existem entre a margem direita do rio São
Francisco e a margem esquerda do rio Real; comer caranguejo e amendoim cozido;
frequentar igrejas e terreiros; comer maniçoba, em Lagarto e Estância; colher
mangaba nas praias do litoral sul; cultivar laranja em Boquim e nos demais
municípios da região centro-sul; plantar feijão e milho, em Poço Verde, no
agreste, no sertão e no centro-sul; produzir renda, bordado e confecções em Tobias
Barreto e Itabaianinha; conhecer a beleza natural do cânion do rio São
Francisco e do lago da Usina de Xingó; visitar a Gruta de Angicos; contemplar a
produção leiteira no sertão; sentir orgulho com as manifestações artísticas;
conhecer o Museu do Capunga, o Museu do Cangaço e o Parque dos Falcões;
observar os recursos naturais da Serra de Itabaiana; banhar-se na cachoeira de
Macambira; comer castanha de caju no povoado Carrilho; explorar as inúmeras
feiras e mercados de Sergipe; acompanhar o trabalho das casas de farinha; e
entregar-se aos prazeres dos bailes e da mesa das festas juninas. Tudo isto é
Sergipanidade.
A
sergipanidade se encarna também em insígnias que a partir do Estado a sociedade
assume e nelas se reconhece, como a bandeira, o brasão e o hino. Ainda, em
embates como o da demarcação dos limites territoriais entre Sergipe e a Bahia.
Um dos pontos marcantes do autorreconhecimento é o da produção de uma história
própria ao seu povo.
Em
tal constructo foi essencial a participação de intelectuais como Felisbelo
Freire que ao publicar, em 1891, a sua História de Sergipe sistematizou uma
síntese que dá conta de um processo que se inicia em 1575 com a ocupação do
território pelos europeus, com as marcas da religiosidade católica dos
conquistadores.
Processo
histórico de permanentes tensões e de momentos particularmente difíceis e
relevantes como o da transferência da capital da Província de São Cristóvão
para Aracaju, em 1855, sob a liderança de Inácio Joaquim Barbosa e do Barão de
Maroim que transferiram a sede política e administrativa de Sergipe para a
margem direita do rio Sergipe, nas proximidades da sua foz.
Ao
escrever sua História de Sergipe, Felisbelo Freire estabeleceu o texto no qual
se lavrou a certidão de nascimento de Sergipe detalhadamente anotada e
amplamente aceita pelos sergipanos. A partir da sua obra monumental Sergipe
conheceu interpretações narrativas do seu território, da sua gente, das suas
práticas culturais e teve a possibilidade de organizar instituições guardiãs de
tal patrimônio.
Organizações
voluntárias da sociedade civil como o Instituto Histórico e Geográfico de
Sergipe, a Academia Sergipana de Letras e a Academia Sergipana de Educação,
dentre tantas outras. Instituições estatais, como o Museu de Sergipe, o Museu
de Arte Sacra, o Museu da Gente Sergipana e o Palácio Museu Olympio Campos.
A
cultura de um povo é a sua vida. Está sempre em transformação. A Sergipana está
nas marcas daquilo que nos faz e refaz diariamente na condição de sergipanos.

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