Jorge Carvalho do Nascimento
Os
autores que estudaram os anos que se seguiram ao golpe militar de 1964 construíram
uma história de anjos e demônios, satanizando liminarmente todas as iniciativas
dos governos ditatoriais, afastando definitivamente qualquer possibilidade de
ter havido algum acerto por parte destes.
É evidente que o período iniciado em
1964 representa a inauguração de uma ditadura cruenta. Contudo, isto não
autoriza qualquer intérprete a negar as mudanças que ocorreram, promovendo
transformações que não podem ser ocultadas pelas artimanhas da memória, que é
sempre seletiva.
Parte significativa da historiografia
que estudou a constituição e o desenvolvimento da política educacional da
ditadura, o fez estabelecendo uma relação direta e automática entre o estado
autoritário e a sua Doutrina de Segurança Nacional. Tais estudos revelam
que a repressão atingiu escolas, professores e estudantes, proibindo quaisquer
manifestações de caráter político.
Tais interpretações possuem dimensões
efetivamente reais. Autores como Jane Soares de Almeida revelam que “a
consciência cívica e patriótica seria estimulada junto à população e a escola
seria uma das vias preferidas como espaço para se pregar o ufanismo nacional e
o amor à Pátria” (ALMEIDA, 2004).
Para tal autora, o medo e a ausência
de liberdade seriam responsáveis por um panorama de estagnação intelectual
propício à promulgação de uma lei autoritária, gestada por tecnocratas a
serviço do poder e pelos militares desejosos de adesão política.
A Lei
n. 5692/71, principal documento normativo da reforma do ensino durante a
ditadura, fixou um novo quadro normativo para o ensino de primeiro e segundo
graus, obrigando a profissionalização em todos os cursos do segundo grau. Os
críticos da nova lei apontavam como o seu principal defeito o fato de esta
haver sido imposta sem o mínimo debate com a sociedade civil, possuindo um
cunho no qual o caráter Tecnicista predominava.
Esse
caráter, justificado em nome da necessidade de extinguir a seletividade do
ensino, na prática era visto como uma ferramenta reforçadora da divisão da
sociedade em classes, produzindo o fracasso dos objetivos proclamados pelo
próprio dispositivo legal, que se propunha igualitário.
Fazendo
a defesa da escolaridade obrigatória dos sete aos quatorze anos, a nova lei
propôs a formação profissional dos professores que atuariam nas séries iniciais
do primeiro grau através da Habilitação Específica de 2º grau para o
Magistério, extinguindo assim o Curso Normal.
Este
dispositivo foi visto como um dos instrumentos produtores daquilo que os
críticos costumavam chamar de desqualificação profissional do magistério: “No
magistério se acentuou o processo de desvalorização profissional com o ingresso
nas escolas da população de baixa renda. Nos cursos de formação de professores
ingressaram principalmente moças desejosas de uma alternativa a profissões
ainda menos valorizadas, o que se concretizaria com a abertura de cursos
noturnos para as que já estavam no mercado de trabalho” (Idem).
Não obstante todas essas análises dizerem
da realidade vivida, há outras perspectivas que devem ser observadas. Em
Sergipe, no caso do governo de José Rollemberg Leite, entre 1975 e 1979, o
secretário da educação, Everaldo Aragão Prado, entusiasta das ideias de
planejamento defendidas pelos economistas do Conselho de Desenvolvimento
Econômico do Estado de Sergipe – Condese, assumiu o discurso da pedagogia tecnicista
legado ao Brasil pelos intelectuais da educação norte-americanos que influenciaram
o país naquele período.
Economista, Everaldo iniciou a sua
gestão buscando estruturar tecnicamente a Secretaria da Educação e Cultura e,
para isto, reorganizou a estrutura da SEC. O ponto central da nova estrutura
era o Departamento de Planejamento – Deplan, órgão setorial do sistema, que
passou a desempenhar as atividades de planejamento, partindo da realização de
pesquisas e da coleta e análise de dados, formulando planos e programas
educacionais e culturais, coordenando, acompanhando, controlando e avaliando
sua execução.
Os técnicos envolvidos com tal
trabalho e o secretário Everaldo Aragão Prado acreditavam firmemente que a nova
estrutura faria com que o estado aperfeiçoasse a sua política educacional,
posto que doravante seria impulsionada pela racionalidade técnica, infensa às
paixões das decisões e dos interesses próprios da política.
O outro lado da racionalidade técnica
pensada por Everaldo estava no Departamento de Administração Geral – DAG,
também órgão setorial do sistema como o Deplan. O DAG desempenhou as atividades
concernentes à administração geral nas áreas de pessoal, material, patrimônio e
serviços auxiliares, bem como manteve e controlou atividades específicas de
serviços contábeis e financeiros.
Foram também incluídos na estrutura
da SEC a Assessoria para Assuntos Culturais, a Assessoria Jurídica, o Serviço
de Engenharia e o Serviço de Inspeção Escolar, todos órgãos de subordinação
direta ao Gabinete do Secretário.
Os Centros Regionais de Educação
(Ceres) foram transformados em uma Diretoria de Educação e Cultura de Aracaju –
DEA, com jurisdição sobre os municípios de Aracaju e da Barra dos Coqueiros e
de mais sete Diretorias Regionais de Educação e Cultura (DRs), distribuídas por
regiões interioranas e cobrindo todo o Estado com o intento de se
desconcentrarem as atividades técnico-administrativas emanadas da Secretaria,
cabendo a estas Diretorias novas atribuições em suas faixas de competência,
englobando atividades de coordenação da política educacional e das atividades
de ensino, assim como das atividades culturais.
Do ponto de vista das atividades esportivas, em 1978, três anos depois da posse de Everaldo Aragão Prado, após a realização de alguns estudos, chegou-se à conclusão da inviabilidade quanto ao funcionamento da Administração dos Estádios Estaduais de Sergipe – Adese, autarquia vinculada a Secretaria da Educação e Cultura que foi, então, extinta, criando-se o Serviço de Administração de Praças de Esportes – Seape.

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