Jorge Carvalho do Nascimento
A
memória, como é sabido, revela, mas também silencia. “Não raro, é arbitrária,
oculta evidências relevantes, e se compraz em alterar e modificar
acontecimentos e fatos cruciais. Acuada, dissimula, manhosa, ou engana,
traiçoeira” (REIS, 2004, 29).
Nas
interpretações sobre o passado, de um modo geral, a memória se faz e se
reconstrói para atender a questionamentos novos, a inquietações e novos modos
de abordagem que inexistiam no momento mesmo em que os fatos se impuseram.
É
necessário afirmar que muitas das interpretações acerca do regime ditatorial
inaugurado em 1964 foram produzidas a posteriori, no processo de construção da
imagem dos heróis que combateram os usurpadores do poder. As décadas de 1960 e
1970 foram férteis em iniciativas importantes e políticas inovadoras como a
implantação nacional de uma rede pública de escolas de primeiro e segundo
graus, ampliando de uma maneira até então desconhecida as oportunidades de
acesso à escolarização para os grupos mais pobres da população brasileira.
É
evidente que após o golpe toda a política educacional brasileira foi
reorientada, sob adequações que implicaram em mudanças na legislação do ensino.
Todavia, autores importantes como Dermeval Saviani revelam que “o governo
militar não considerou necessário modificá-la totalmente mediante a aprovação
de uma nova lei de diretrizes e bases da educação nacional. Isso porque, dado
que o golpe visava garantir a continuidade da ordem socioeconômica que havia
sido considerada ameaçada no quadro político presidido por João Goulart, as
diretrizes gerais da educação, em vigor, não precisavam ser alteradas. Bastava
ajustar a organização do ensino à nova situação” (SAVIANI, 2004).
Esta
realidade impõe o afastamento de um certo tipo de maniqueísmo que estabelece
terem alguns agido corretamente e outros de modo inadequado, dividindo o debate
educacional numa peleja entre críticos e alienados. A política educacional, da
mesma maneira que a prática dos professores e estudantes, foi ambígua.
Contudo
aconteceu daquele modo e não da maneira como gostaríamos que tivesse sido. Se
as transformações não foram profundas ou não levaram a política educacional na
direção dos cânones da transformação socialista, é uma pena. Aquela foi a
realidade objetiva e não a dos nossos julgamentos de valor.
Em Sergipe, a
partir de 1975, o empenho pela implantação das prescrições da lei 5.692/71
levou o secretário da educação e cultura, Everaldo Aragão Prado, a determinar que
Antônio Dantas de Oliveira, o diretor do Departamento de Planejamento – Deplan,
elaborasse projetos para capacitação de recursos humanos no âmbito do programa
do Livro Didático do Ensino Fundamental. O que se pretendia era dar maior
eficácia ao uso do livro pelos professores das escolas de primeiro grau.
No mesmo período
foram também concebidos projetos para o uso de novas metodologias no processo
ensino-aprendizagem, houve reformulação de currículos e a implantação do
Programa de Assistência Técnica e Financeira ao Ensino Municipal, o
Promunicípio. As escolas de primeiro grau ganharam o Serviço de Orientação
Educacional.
O modelo de
política educacional em implantação a partir da orientação que se recebia dos
consultores norte-americanos apostava firmemente na racionalidade do tecnicismo
pedagógico. Estava se disseminando a crença de que por tal caminho todos os
problemas da educação brasileira seriam resolvidos.
Ademais, mesmo
apostando em uma nova racionalidade tecnicista, não é possível esquecer que a
lei 5.692/71 manteve vigentes os dispositivos aprovados pela lei 4.024/61,
durante o regime democrático, quanto aos fins da educação, o direito à
educação, a liberdade do ensino, a administração do ensino e os sistemas de ensino,
sem que fossem, portanto, alteradas as diretrizes da educação nacional.
Em outras
palavras, a reforma educacional efetivada pela nova legislação respondia a
demandas populares e a pressões do movimento social e dos grupos de elite,
manifestadas ao longo de toda a primeira metade da década de 1960, como a
extensão da obrigatoriedade do ensino básico para oito anos; o fim dos exames
de admissão ao ginásio, mecanismo que impedia a continuidade dos estudos de
alunos mais pobres; a equiparação de todos os cursos de nível médio, de modo a
extinguir a segregação de alguns cursos técnicos que, mesmo depois da vigência
da lei 4.024/61, ainda tinham dificultado o acesso de seus concludentes ao
ensino superior; e, a expansão da oferta do ensino público de primeiro e
segundo graus.
A reforma do
ensino de primeiro grau fez com que houvesse um crescimento visível dos
investimentos do setor público na expansão da rede de escolas destinadas a
oferta dos antigos ensinos primário e ginasial, reunidos, após a reforma, nas
oito séries do ensino de primeiro grau.
Em 1964
existiam no Brasil 110.824 instituições escolares dedicadas ao ensino primário
e ginasial. Em 1984, o total de estabelecimentos de ensino de primeiro grau era
de 190.824 unidades de ensino, o que representa um crescimento percentual de
72,27 por cento.
Do total de escolas primárias e ginasiais existentes em 1964, 101.717 eram públicas. Vinte anos depois, as instituições de ensino público eram 180.983, apresentando um crescimento de 77,92 por cento. As escolas privadas, que eram 9.107, cresceram apenas 9,08 por cento, chegando a 9.934 em 1984.

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