Jorge
Carvalho do Nascimento
A
produção de um estudo capaz de apanhar as memórias dos que se opuseram, em
Sergipe, à última ditadura militar ainda não considerou adequadamente aqueles
que no ponto de partida apoiaram o golpe militar de 1964, mas depois fizeram
uma inflexão e assumiram uma posição de críticos em face das agressões ao texto
constitucional, das prisões ilegais, da tortura e de toda sorte de perseguições
registradas contra os adversários do regime.
Em
todo Brasil existem estudos que cuidaram da posição de importantes líderes
políticos e de intelectuais que no primeiro momento aplaudiram os generais
golpistas, mas, logo em seguida, entenderam que aquele não era o caminho mais
adequado.
Acabei
de ler O HOMEM E SEU TEMPO, biografia de João Machado Rollemberg Mendonça,
agora com 98 anos de idade. O livro foi escrito pela historiadora Josevanda
Mendonça Franco, numa edição da Gráfica Editora J. Andrade.
Em
290 páginas resultante de uma pesquisa cuidadosa, Josevanda nos apresenta o
perfil biográfico do nonagenário sergipano que marcou a história da sua vida
como engenheiro, empresário, proprietário rural e político que exerceu
importante liderança na economia, na política e na vida social durante a
segunda metade do século XX e no primeiro quartel do século XXI.
O
biografado é detentor dos brasões da elite sergipana, descendente em linha
direta do Barão de Japaratuba, representante da linhagem dos alemães Rollemberg
que migraram para o Brasil a partir de Portugal. João Machado, um Rollemberg
Mendonça, nasceu em 1927 na Fazenda Santo Antônio, município de Pacatuba.
Como
boa biógrafa, Josevanda cuidou não apenas de montar o roteiro de vida do seu
biografado, mas também de analisar os contextos de quase um século de história
que envolvem a economia, a política e as práticas culturais de Sergipe e do
Brasil.
Temas
como a crise que envolveu os negócios referentes a produção de açúcar na
primeira metade do século XX, afetando os negócios da família de João Machado
são objeto da análise de Josevanda Franco. Da mesma maneira, o contexto da
mineração de cal. E também os negócios envolvendo a venda de combustíveis, a
indústria cerâmica e a hotelaria, atividades que marcaram a vida do biografado.
João
Machado Rollemberg Mendonça viveu uma temporada de cinco anos na cidade de
Salvador, onde frequentou o curso de engenharia civil da Universidade Federal
da Bahia, retornando a Aracaju no início dos anos 50 do século XX, com o seu
diploma de engenheiro.
De
volta a sua terra investiu nos negócios da construção civil, sempre com muito
pioneirismo e ousadia, tendo inovado com a construção do primeiro edifício
residencial de apartamentos destinado a famílias mais abastadas, com vista
voltada para o mar, ao erguer na avenida Ivo do Prado o Edifício Atalaia. Hoje,
o edifício é um importante exemplar da arquitetura modernista na cidade de
Aracaju.
João
Machado se transformou em militante político da União Democrática Nacional –
UDN e nessa condição foi convidado, em 1959, pelo governador Luiz Garcia para
assumir o cargo de secretário da fazenda, obras e produção. Ocupando tal
posição comandou obras públicas que impactaram a vida de Sergipe.
As
marcas mais importantes do trabalho de João Machado Rollemberg em tal período
foram o Aeroporto de Aracaju, a Estação Rodoviária Governador Luiz Garcia e o
Hotel Palace de Aracaju, além de um grande acervo de obras públicas como
estradas e escolas estaduais.
O
sucesso do trabalho de João Machado Rollemberg fez com que nas eleições de 1962
se elegesse deputado federal. Ocupando uma cadeira da Câmara em 1964, assistiu
e apoiou a deposição do presidente João Goulart, mas, antes que terminasse o
ano, já divergia dos golpistas que tomaram o poder.
Eleito
para um segundo mandato no Congresso Nacional, a partir de 1967, foi cassado em
1969 por divergir cada vez mais frontalmente das decisões tomadas pelos
generais que governavam o Brasil e que cobravam apoio dos parlamentares.
Cassado,
João Machado Rollemberg retomou suas atividades empresariais em Aracaju e com a
queda da ditadura disputou o mandato de deputado federal constituinte,
retornando ao Congresso Nacional para o seu terceiro mandato.
Além
da vida pública, a biógrafa nos apresenta também João Machado Rollemberg na sua
vida privada, especialmente nos seus negócios e no ambiente familiar, com
filhos e netos.
É uma leitura que eu recomendo.

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