Jorge
Carvalho do Nascimento
Três
notícias que chegaram ao Brasil no final desta semana que está se encerrando em
clima natalino chamaram a atenção dos brasileiros. Papai Noel trouxe um bom
aviso e dois avisos muito ruins. Das três notícias, provavelmente uma delas
sequer será anotada pela maioria da população, até porque foi pouco notada,
enquanto duas outras continuarão a ocupar o noticiário, as redes sociais e o
debate nas ruas.
1
– Neste final de semana aconteceu a primeira viagem, de caráter experimental,
com um trem carregado de grãos estreando a malha da ferrovia Transnordestina;
2
– O orçamento da União para o ano de 2026 foi aprovado com a previsão de
consumir R$ 61 bilhões em emendas parlamentares distribuídas entre deputados
federais e senadores da república. É aquele dinheiro que eles gastam sem
estabelecer muitos critérios, fazendo a alegria das chamadas bases e dos cabos
eleitorais, garantindo a própria reeleição de cada um deles. No mesmo
orçamento, os membros do Congresso Nacional operaram a magia, elevando de um
para cinco bilhões de reais os gastos previstos para a campanha eleitoral de
2026;
3
– A Polícia Federal, autorizada pelo ministro Flávio Dino (do STF), cumpriu
mandados de busca e apreensão em endereços dos deputados federais Sóstenes
Cavalcante e Carlos Jordy, bastiões da moralidade na legenda do Partido Liberal
– PL, suspeitos de desvios da ordem de 28,6 milhões de reais. No apartamento de
Sóstenes Cavalcante foi encontrada uma sacola plástica preta de lixo contendo
430 mil reais que o parlamentar alega ter esquecido de depositar no banco.
Quero
convidar quem se dispôs a fazer a leitura deste texto para um exercício de
imaginação sobre coisas que não foram e que dificilmente serão reais, no caso
brasileiro. Imaginemos que os nossos deputados federais e senadores fossem
efetivamente patriotas, como muitos deles gostam de se afirmar ou, ao menos
gostavam até que estendessem uma grande bandeira norte-americana em um evento
que ocorreu este ano na avenida Paulista.
Suponhamos
que num ato de sanidade momentânea, os parlamentares federais decidissem ficar
um ano sem receber o dinheiro das tais emendas parlamentares e destinassem os
61 bilhões de reais a um hipotético plano ferroviário nacional.
E
que tal, se em outro repentino surto de sensatez eles decidissem permanecer com
um bilhão de reais para a campanha eleitoral 2026 e destinassem mais quatro
bilhões ao mesmo plano ferroviário, o que totalizaria 65 bilhões de reais para
o país investir em ferrovias.
Não
vou nem falar dos 28 milhões que dois deputados federais são acusados de
desviar, porque é justo preservar o direito a ampla defesa e a presunção de
inocência. E, em tal caso, o comportamento não republicano ainda não ficou
comprovando. Respeitemos, portanto, a presunção de inocência.
Mas,
65 bilhões de reais já seria um volume de recursos capaz de mudar em muito a realidade
brasileira. Bata lembrar que a ferrovia Transnordestina prontinha e operando
está orçada em 15 bilhões de reais, em toda a sua extensão de 1750 quilômetros.
Com
um investimento da ordem de 65 bilhões de reais, em um ano, o país poderia
investir na construção de quatro ferrovias do mesmo tamanho da Transnordestina
e ainda sobrariam cinco bilhões para aquisição de locomotivas, vagões de carga
e vagões de passageiros mais modernos e confortáveis.
Para
que se avalie o quanto o Congresso Nacional, de forma acintosa, num verdadeiro
escárnio, desperdiça o dinheiro do povo brasileiro, torrando bilhões com
bobagens ou, eventualmente, em atos poucos republicanos e deixando de lado o
essencial, basta lembrarmos que o país já chegou a dispor de 40 mil quilômetros
de ferrovias no início do século XX.
Por
falta de investimentos e por haver optado pelo transporte rodoviário, o Brasil
deixou de investir em estradas de ferro e hoje temos somente 30 mil quilômetros
de ferrovias, mais de 15 mil deles obsoletos e inservíveis, sem nenhuma
utilização. A maior parte dos 15 mil quilômetros ainda utilizados, funciona
precariamente.
O
transporte de cargas por trem custa quase 40 por cento menos que o transporte
rodoviário. Um comboio, um trem, transporta a mesma quantidade de carga
equivalente ao que podem transportar 360 caminhões. No caso do trem, com
baixíssimo impacto ambiental.
O
fato de o Brasil haver optado pelo modal rodoviário faz com que o frete
represente 15 por cento do valor final dos produtos industriais no Brasil, o
que encarece as nossas mercadorias para o consumidor final, em função do
chamado custo Brasil que também impacta as nossas exportações.
É bom sonhar. Sonhar com trens, sonhar com deputados e senadores que tenham maior respeito pelo povo brasileiro. A realidade sempre nos acorda com o noticiário dando conta da ausência do transporte ferroviário e da indecência que é o volume de gastos com as chamadas emendas parlamentares. A orgia da quantidade de dinheiro gasto e de imposição do Congresso não existe em outras democracias.

Comentários
Postar um comentário