Jorge
Carvalho do Nascimento
“Se
você acha que a educação é cara, experimente o preço da ignorância”. A frase
foi amplamente utilizada a partir dos anos 60 do século XX pelo escritor e comediante
norte-americano Robert Orben. Ele trabalhou muito oferecendo cursos e
treinamentos a empresas e órgãos públicos da América do Norte e sempre afirmava
isto para argumentar que o seu trabalho não custava caro. Na década de 70,
Orben foi assessor e redator de discursos do presidente dos Estados Unidos da
América, Gerald Ford.
Dentre
os intelectuais da educação, a frase foi popularizada por Derek Bok, a partir
da década de 70, que passou a utiliza-la nas discussões sobre o valor das
anuidades escolares e a fixação do orçamento da Universidade de Harvard, onde
foi reitor.
Leonel
Brizola trouxe a frase para o Brasil, em 1989. Durante um debate eleitoral,
Fernando Henrique Cardoso criticou a proposta de educação integral defendida
por Brizola e Darcy Ribeiro. Cardoso criticou o custo elevado de manutenção dos
Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs, argumentando que o modelo era
financeiramente inviável para ser adotado em larga escala.
Leonel
Brizola reagiu à crítica formulada por Cardoso e rebateu de bate pronto: “Caro,
Fernando Henrique, é o custo da ignorância”. Brizola afirmou que não
considerava o custeio dos CIEPs como gasto, mas sim como investimento
necessário que evitaria despesas futuras com segurança pública, com sistemas
prisionais e com assistência social.
Os
sergipanos foram surpreendidos na última semana do ano de 2025 com a chegada à
Assembleia Legislativa e a aprovação na última semana do ano, em regime de
urgência, do projeto de lei que criou a Universidade do Estado de Sergipe –
UNESE.
No
dia seguinte a aprovação (por unanimidade), dia 30, o governador Fábio
Mitidieri e o vice-governador e secretário da educação e cultura, Zezinho
Sobral, sancionaram a lei, criando a nova universidade. Na verdade, quase
ninguém que acompanha a vida política acreditava que eles fossem cumprir essa
promessa de campanha, todos argumentando que criar, implantar e custear uma
universidade estadual custa muito caro.
Ao
que parece, Mitidieri e Sobral levaram a sério o pensamento difundido no Brasil
por Leonel Brizola: “Caro é o custo da ignorância”. A lei sancionada prevê um investimento
da ordem de 31 milhões neste ano de 2026 para implantação da Universidade.
Alguns
especialistas com os quais conversei consideram o valor subestimado e acreditam
que ao longo do ano será necessário pedir à Alese a suplementação de tal valor.
Todos dizem que não há como consumir menos de 50 milhões de reais neste
primeiro ano. Consideram que em 2027, após empossar os professores que farão
concurso ainda neste ano de 2026, os gastos chegarão a 100 milhões de reais.
Mas, da minha parte estou com Leonel Brizola: “Caro é o custo da ignorância”.
Li
o texto completo da lei e gostei da proposta. Como toda instituição complexa
que acaba de ser criada, ainda será necessário promover muitos
aperfeiçoamentos, a fim de garantir os princípios constitucionais que
regulamentam o ensino superior.
Como
acontece nas universidades de vários estados, será necessário mudar a lei e
estabelecer uma vinculação do seu custeio e dos seus investimentos a um
percentual mínimo da receita estadual. Este é o único meio capaz de assegurar o
cumprimento dos dispositivos da Constituição Federal que impõe ao funcionamento
das universidades autonomia financeira, administrativa e didático-científica.
Faz
todo sentido a justificativa apresentada para criar a Unese, quando chama a
atenção para a necessidade de ampliar a oferta de educação superior em Sergipe.
De fato, somente 13,4 por cento dos sergipanos em idade adulta possuem ensino
superior completo. No Brasil, 20,5 por cento da população adulta possui ensino
superior completo. Dentre os países da OCDE, 48 por cento da população em idade
adulta completou o ensino de graduação superior. Logo a providência de criação
da Unese, também sob esse ponto de vista, chega em boa hora.
Uma
outra boa notícia diz respeito ao compromisso social da instituição. A lei de
criação da Unese exige que 80 por cento das vagas sejam destinadas
exclusivamente a estudantes que cursaram o ensino médio em escolas públicas.
A
Universidade Estadual de Sergipe implantará inicialmente cursos diversos dos
tradicionais como Direito e Medicina. Priorizará a área de tecnologia e os
cursos nos quais existe alta demanda no mercado de trabalho como Sistemas de
Informação, Computação, Ciência de Dados, Engenharia de Energia (com foco em
Gás e Energias Renováveis) e Gestão em Inovação.
Com
a criação da Unese, Sergipe inicia o quinto grande ciclo de investimentos na
qualificação da sua juventude. Considero que o primeiro desses ciclos se
inaugurou na década de 50 do século XX e foi consolidado em cinco de abril de
1960, com a vigência da lei 961, quando foi criada a Secretaria da Educação,
Cultura e Saúde.
Sob
a liderança do governador Luiz Garcia e do seu irmão, o médico Antônio Garcia
Filho (primeiro secretário da educação de Sergipe), foi possível articular a
experiência das faculdades de Química, Filosofia, Serviço social, Economia,
Direito e contribuir para a criação da Faculdade de Medicina. Tudo isto ofereceu
as condições para que os sergipanos discutissem a necessidade de criação da sua
primeira universidade.
O
segundo ciclo foi iniciado em 1963, quando o governador João de Seixas Dória autorizou
a transferência das faculdades estaduais para uma futura universidade federal a
ser criada em Sergipe. No mesmo período nomeou o padre Luciano Duarte como
membro do Conselho Estadual de Educação com a tarefa de criar e liderar uma
Câmara do Ensino Superior que faria os estudos necessários ao funcionamento de
uma Universidade Federal em Sergipe.
O
segundo ciclo somente conheceu os seus primeiros resultados depois de quatro
anos de trabalho. O decreto-lei 269, de 28 de fevereiro de 1967, criou
oficialmente a Universidade Federal de Sergipe. O apogeu deste ciclo data de 15
de maio de 1968, com a posse do professor João Cardoso do Nascimento Junior
como primeiro reitor, iniciando efetivamente as suas atividades.
A
criação das Faculdades Integradas Tiradentes, em 1972, representa o início do
terceiro ciclo com o funcionamento da primeira instituição particular sergipana
de ensino superior. A partir de 1994, a instituição foi consolidada como Universidade Tiradentes, pelo
trabalho pioneiro do seu fundador, o professor Jouberto Uchoa de Mendonça.
Quando
Luiz Antônio Barreto assumiu o cargo de secretário de estado da educação de
Sergipe, durante o governo Albano Franco, em 1995, somente em 16 municípios
sergipanos funcionavam escolas de segundo grau. Faltavam professores com
formação adequada.
Luiz
procurou o professor José Fernandes de Lima, então reitor da Universidade
Federal de Sergipe. Estabeleceram uma parceria, assinaram convênio e
implantaram o Programa de Qualificação Docente – PQD, com cinco polos que
funcionaram nos municípios de Propriá, Nossa Senhora da Glória, Estância,
Lagarto e Itabaiana.
O
PQD inaugurou o quarto grande ciclo de formação de profissionais no ensino
superior em Sergipe. Em 1998, quando Luiz Antônio deixou o cargo, o ensino
superior estava funcionando nos 75 municípios sergipanos. Desde que iniciou
suas atividades, o PQD formou nos seus cursos de graduação, em convênio com a
UFS, cerca de seis mil professores em Sergipe.
Quando
sancionaram a lei que criou a Universidade Estadual de Sergipe – Unese, Fábio
Mitidieri e Zezinho Sobral iniciaram o quinto grande ciclo de formação de
profissionais sergipanos em nível superior. Inscreveram seus nomes ao lado
daqueles que a história reconhece como grandes responsáveis por abrir
oportunidades de formação qualificada para a juventude sergipana.
Nomes
da maior importância, como os aqui citados Luiz Garcia, Antônio Garcia Filho,
João de Seixas Dórea, Dom Luciano Cabral Duarte, João Cardoso do Nascimento
Junior, Jouberto Uchoa de Mendonça, Luiz Antônio Barreto e José Fernandes de
Lima. E agora, também, Fábio Mitidieri e José (Zezinho) Macedo Sobral.
Os
críticos da iniciativa de ambos dizem que a nova instituição vai custar muito
caro aos sergipanos. Sejam 31 milhões, 50 milhões, 100 milhões ou qualquer outro
número que o estado suporte pagar, seja qual for o número, vale sempre a pena
invocar Leonel Brizola, Derek Bok e Robert Orben.
“Se você acha que a educação é cara, experimente o preço da ignorância”.

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