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OS SITIADOS DE IBIÚNA



 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

De acordo com o jornalista e escritor Jason Tércio, “O comboio de ônibus, caminhões, caminhonetes e peruas seguia pela Raposo Tavares. Dentro de um dos ônibus, Benedito de Figueiredo, da delegação de Sergipe, estava preocupado. Tinha no bolso sua carteira funcional do Ministério do Trabalho, onde trabalhava como auxiliar de datiloscopista. Poderia no mínimo ser demitido como subversivo, por justa causa. Numa distração do soldado, ele conseguiu jogar a carteira por uma fresta da janela” (p. 189).

 O relato está no livro STIADOS:  A SAGA DO CONGRESSO DE IBIÚNA EM 1968, publicado pela Matrix Editora em 2025. São 294 páginas com prefácio do jornalista Franklin Martins, ele mesmo líder estudantil, militantes de esquerda e à época participante do Congresso.

De fato, durante o Congresso de Ibiúna, Sergipe teve uma numerosa representação de delegados. À época, o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Sergipe era presidido por João Augusto Gama da Silva, que liderou, juntamente com Wellington Mangueira, uma delegação de 10 sergipanos.

Além de Gama, Wellington e Benedito, também participaram do Congresso de Ibiúna e foram presos os líderes estudantis sergipanos Antônio Vieira da Costa, José Alves do Nascimento, João Bosco Rollemberg Cortes, Janete Correia de Melo, José Jacob Dias Polito, Elza Maria dos Santos e Laura Maria Tourinho Ribeiro.

As tratativas para a participação dos estudantes que representavam Sergipe foram feitas através dos contatos com José Carlos Novais da Mata Machado, diretor da União Nacional dos Estudantes – UNE e responsável pela relação da entidade com os líderes estudantis sergipanos.

Concordo com o prefaciador Franklin Martins quando afirma que o livro é excelente, resultado de uma ótima pesquisa, com um “ótimo texto, denso sem ser pesado” (p. 11). E também estou acorde com o autor que ao longo do seu trabalho revela que não obstante a sua importância histórica, o Congresso sempre ocupou um espaço marginal na historiografia brasileira.

Não obstante o evento ser citado recorrentemente e ter como seus líderes figuras que após a queda da ditadura militar, em 1984, assumiram papel de proa no cenário político brasileiro, a sua história nunca foi contada buscando as causas e consequências, o que de fato aconteceu nos bastidores e qual foi a sua verdadeira dimensão.

Os militares e demais agentes dos órgãos de repressão da ditadura chegaram ao local do Congresso, que se realizava clandestinamente, no dia 12 de outubro de 1968, entre seis e sete horas da manhã, depois de caminharem por mais de 10 quilômetros.

Um ano antes, entre os dias 26 e 28 de julho de 1967, os estudantes conseguiram, com sucesso, realizar clandestinamente o 29º Congresso da UNE num espaço improvável: a Casa de Retiro dos Monges Beneditinos, na pequena cidade de Vinhedo, distante 80 quilômetros da capital do Estado de São Paulo. No encerramento ainda fizeram um ato público e um comício relâmpago na porta da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo.

Até que se realizasse o Congresso de Ibiúna, em outubro de 1968, mesmo com as muitas prisões de líderes do movimento estudantil que ocorreram em São Paulo, a UNE vinha conseguindo driblar a ação policial do serviço secreto do Departamento de Ordem Política e Social – o DOPS.

Desde que o marechal Castelo Branco tomou o poder político no Brasil, em 1964, e desmantelou o movimento sindical e os partidos políticos, com o Ato Institucional número dois, em 1965, a UNE, mesmo declarada ilegal e atuando na clandestinidade, era um dos principais focos de resistência à ditadura militar no país.

Acabar de desmantelar a UNE era, deste modo, ponto de honra para os dirigentes da ditadura brasileira. “Ibiúna foi a pá de cal no cadáver da oposição” (p. 275). Foram presos 712 líderes do movimento estudantil brasileiro (556 rapazes e 156 garotas) (p. 251), todos levados no primeiro momento para o Presídio Tiradentes, no centro da cidade de São Paulo, onde permaneceram por mais de dois meses até que o último preso fosse liderado, ressalvados aqueles que já possuíam prisão anteriormente decretada.

Ali estavam alunos que lideravam o movimento estudantil em todas as universidades brasileiras. Contudo, durante todo o período de prisão, somente um reitor se dispôs e conseguiu visita-los: Zeferino Vaz, da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.

Todavia, muitos líderes brasileiros lutaram em defesa da libertação dos estudantes presos em Ibiúna, como o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara. O prelado se manifestou com uma nota da Ação Justiça e Paz, movimento criado por ele. A Ação também encaminhou um telegrama de protesto ao governador de São Paulo, Abreu Sodré.

Um mês depois da prisão, à medida que eram fichados pelo DOPS e prestavam depoimento, os estudantes começaram a ser liberados e entregues aos familiares e também a autoridades policiais dos seus estados. Muitos governadores mandaram buscar os estudantes no Presídio Tiradentes. Todavia, esta opção não foi adotada pelo governador de Sergipe, Lourival Baptista.

No caso dos estudantes sergipanos, durante o período em que estiveram presos, eles receberam a visita de Osvaldo Catan, um advogado sergipano que vivia e tinha escritório profissional em São Paulo.

Catan foi militante político de esquerda em Aracaju e no governo do presidente João Goulart atuou como superintendente adjunto em Sergipe da Superintendência da Reforma Agrária - Supra. Após a deposição de Goulart, Catan foi preso no 28 BC e sempre era intimado a voltar ao quartel para prestar novos depoimentos até que decidiu se estabelecer em São Paulo.

Em Aracaju, as famílias dos estudantes conversaram entre si e Alvarim, o pai de Wellington Mangueira, viajou para São Paulo com o objetivo de conseguir a libertação e de trazer de volta para Sergipe o grupo de 10 estudantes que se encontravam no Presídio Tiradentes.

Em São Paulo, Alvarim e o grupo de estudantes receberam o apoio de Adalberto Macedo, um advogado sergipano estabelecido naquela cidade, onde fazia muito sucesso profissional e econômico. Adalberto assinou os documentos impostos pelos órgãos de segurança que custodiavam os estudantes. Adalberto, atualmente vive em um município da região sul do estado de Sergipe. É irmão da ex-prefeita de Laranjeiras Ione Sobral e tio do vice-governador Zezinho Sobral.

Quando liberados, os dez líderes estudantis sergipanos até então presos, foram levados para o apartamento de Adalberto onde tiveram a oportunidade de fazer uma refeição digna, depois das restrições pelas quais passaram no presídio. Dois dias depois todos embarcaram de volta a Aracaju.

O livro de Jason Tércio lança luzes sobre um dos episódios da maior importância vivido durante o período da ditadura militar brasileira da segunda metade do século XX. Por isto, é uma leitura indispensável a todos que estudam a história política do Brasil.

 

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