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A MEMÓRIA CATÓLICA EM SERGIPE


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

No edifício construído inicialmente para abrigar o Seminário Diocesano de Aracaju funcionam atualmente a reitoria e os cursos de pós-graduação do Instituto Federal de Sergipe – IFS. O Seminário Diocesano foi instalado em 1913, por iniciativa do primeiro bispo diocesano, Dom José Thomaz Gomes da Silva.

Quando da sua instalação, em quatro de abril de 1913, o Seminário funcionou no prédio que servia de residência episcopal, na praça Camerino, em Aracaju. A Igreja Católica fez uma campanha de recolhimento de donativos, transformados em fundos para construção da sede própria do seminário.

As obras do primeiro edifício ficaram prontas em 1914 e imediatamente os seminaristas foram estudar nas novas instalações da quadra de terras situada entre as ruas Riachuelo, Itabaiana, São Vicente (agora, Senador Rollemberg) e Espírito Santo (atualmente, Dom José Thomaz).

Dentro da mesma quadra. Com a fachada voltada para a rua Espírito Santos, foi construído o Santuário de Nossa Senhora Menina. Ao lado do Santuário e também pelo lado da rua São Vicente foram construídas 14 casas (cada uma com cerca de 14 metros de frente) que eram alugadas. A renda ajudava a custear as atividades do Seminário e outras despesas do clero.

No interior do terreno, ao lado dos edifícios escolares e do internato do Seminário foi erguida a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, com acesso pela rua Espírito Santo. A Igreja era destinada ao serviço religioso dos seminaristas, mas também permitia o acesso das demais pessoas que procuravam aquele templo.

Em 1957, o padre José Carvalho de Souza (depois monsenhor) assumiu a reitoria do Seminário Diocesano Sagrado Coração de Jesus e também o cargo de capelão da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Dois anos depois, para fortalecer financeiramente as atividades do seminário, o jovem reitor decidiu fundar um educandário que passou a funcionar no mesmo edifício. Era o embrião do Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus. O Ginásio Diocesano começou a funcionar em março de 1960 e em 1963 foi criado o Colégio. Em 2012 o monsenhor Carvalho foi afastado da direção do Colégio Arquidiocesano.

Empreendedor, o monsenhor Carvalho conseguiu recursos junto a fundações católicas da Alemanha Ocidental e, em 1966, inaugurou o novo e moderno edifício, com três pavimentos, do Colégio Diocesano Sagrado Coração de Jesus.

O Seminário e o Colégio funcionaram no mesmo edifício até o ano de 1980, quando o Seminário foi transferido e ocupou os prédios e toda a área da antiga Chácara Paulo VI, propriedade da Arquidiocese localizada no bairro Industrial, à margem direita do rio Sergipe.

A criação do Seminário Diocesano de Aracaju foi um dos fatos de maior relevância para o catolicismo em Sergipe. A iniciativa do bispo Dom José Thomaz resolveu um problema crônica da Igreja Católica sergipana: a escassez de padres.

A historiadora Raylane Andrezza Navaro Dias Barreto, sergipana de Itaporanga D’Ajuda e doutora em História da Educação, atualmente docente e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco, desenvolveu importantes estudos sobre o tema. No seu livro Os Padres de Dom José, Raylane demonstra de que modo o Seminário representou não apenas a ampliação do número de clérigos, mas também a instalação de uma escola que formou importantes quadros da vida do estado de Sergipe.

A historiadora revela que o bispo Dom José Thomaz foi um importante impulsionador para a criação de uma nova elite intelectual sergipana com relevantes nomes como Afonso de Medeiros Chaves, Alberto Bragança de Azevedo, Avelar Brandão Vilela, Carlos Camélio Costa, Domingos Fonseca de Almeida, Edgar de Brito, Eraldo Barbosa, João Moreira Lima, José Augusto da Rocha Lima, Jugurta Feitosa Franco, Mário de Miranda Villas Boas e Olívio Teixeira, dentre tantos outros.

Ontem fui surpreendido ao receber uma coleção de fotos enviada por um amigo, dando conta do abandono e da degradação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. As fotos são deprimentes e revelam um absoluto desprezo para com um importante exemplar do patrimônio histórico católico, registro destacado da memória do catolicismo em Sergipe.

Procurei apurar. Descobri que tem mais de um ano que as portas da Igreja foram fechadas e nunca mais se abriram. O último padre que ali oficiou, o Padre Waltervan, foi transferido para outra Igreja e a Arquidiocese não lembrou de designar nenhum substituto, deixando sem serviço religioso os católicos que habitualmente buscavam aquele templo para participar das missas ali oficiadas.

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus pede socorro. Não sei explicar a razão pela qual a Arquidiocese resolveu mantê-la sem funcionar. Todavia, ao menos a preservação do edifício deve ser cuidada como expressão de uma época na qual o catolicismo em Sergipe se expandiu sob o governo de Dom José Thomaz.

O símbolo que é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a memória do trabalho hercúleo de Dom José Thomaz, a importância histórica do Seminário Arquidiocesano, a história do monsenhor Carvalho e do Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus não podem desmoronar. Merecem toda atenção.

Conheci formalmente em uma atividade da Academia Sergipana de Letras o novo arcebispo de Aracaju, Dom Josafá Menezes Silva. Tive a oportunidade de ouvi-lo discursar e falar da sua formação e do seu trabalho eclesiástico. Fiquei com muito boa impressão.

Acredito que certamente o arcebispo não está recebendo informações atualizadas sobre a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Espero que ele tome conhecimento, faça a designação de um padre responsável por aquela Igreja e também que o sacerdote incumbido inicie o quanto antes o trabalho de restauração do templo.     

 

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