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A CAPELA E A CIDADE

      Jorge Carvalho do Nascimento*     A criação do encapelado de Santo Antônio do Aracaju data de outubro de 1778, quando o padre Luís de Brito Soares recebeu a sua administração. Ali se estabeleceu o povoado de Santo Antônio. O povoado é algo distinto da cidade que Inácio Barbosa fundou em 1855. Somente muitos anos após a fundação da cidade de Inácio Barbosa, o povoado Santo Antônio do Aracaju foi incorporado à malha urbana da nova capital.   Não obstante a observação com a qual dei início a este texto, é pouco crível a tese sustentada por boa parte da historiografia sergipana, que considera o espaço no qual a cidade de Aracaju foi erguida uma praia inóspita e esquecida. A nova cidade foi construída a partir do bem ocupado sítio Olaria. Eram duas Olarias: a Olaria do Aracaju e a Olaria de Cima. A primeira, a Olaria do Aracaju ou Porto dos Ferreiros, tinha sua sede na área central da cidade erguida por Inácio Barbosa, nas proximidades da atu...

REQUIÉM PARA MARIETA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Querida amiga Marieta: Lembro-me com muita clareza do dia em que nos conhecemos. Era o mês de julho de 1985. Eu havia acabado de regressar a Aracaju, depois de três anos cursando Mestrado em Filosofia da Educação na Pontifícia Universidade Católica – PUC de São Paulo. Estávamos vivendo a efervescência de um momento inesquecível da história do Brasil. As primeiras eleições diretas para prefeitos das capitais, depois de 20 anos da ditadura militar que se iniciara em março de 1964. À época militante do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, me engajei na campanha eleitoral ao lado do então jovem deputado federal Jackson Barreto de Lima, o candidato da esquerda ao cargo de prefeito de Aracaju. Você era militante do Movimento Socialista e também fazia campanha para o mesmo candidato. O Movimento Socialista era liderado por jovens intelectuais de esquerda como o engenheiro agrônomo Rosalvo Alexandre e pelo médico A...

A MEMÓRIA-MONUMENTO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SERGIPE

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Os escritores José Anderson Nascimento e Sayonara Viana organizaram juntos o livro JUSTIÇA, MEMÓRIA E CIDADANIA: 130 ANOS DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SERGIPE, publicado em 2020 pela editora Tavares & Tavares, sob os auspícios do Tribunal de Justiça sergipano. São 208 páginas em policromia, encadernadas com capa dura, contendo um bom ensaio de História do Poder Judiciário ilustrado com rica iconografia. O texto de apresentação é assinado pelo desembargador Edson Ulisses de Melo, à época presidente do Tribunal. São seis capítulos que mostram a trajetória do poder, desde que foi implantado como Tribunal de Relação. No primeiro capítulo, o texto de José Anderson Nascimento faz um esboço histórico da justiça no Brasil. Presidente da Academia Sergipana de Letras, o juiz de Direito aposentado Anderson Nascimento é historiador e, também professor já gozando a aposentação do Departamento de Direito da Univ...

OPERAÇÃO CAJUEIRO. O SILÊNCIO DA IMPRENSA DE SERGIPE E A LUTA DOS CORRESPONDENTES

      Milton Alves*     De repente, um Opala amarelo para bruscamente no cruzamento das Ruas Permínio de Souza e Nossa Senhora das Dores, bairro Cirurgia. Dentro do carro somente um ocupante, de quem ouvi o anuncio/advertência: “camarada Mílton Alves, os companheiros estão sendo presos, não sabemos para onde estão sendo levados nem por quem”. E seguiu: “cuide-se e não saia de casa”. O anuncio das prisões e o conselho foram do então deputado estadual Jackson Barreto (MDB), que viria a ser governador de Sergipe. Eu conversava com um grupo de amigos, todos sentados num degrau de entrada do Bar de ¨Seu¨ Dinho – que não mais existe. Os amigos ficaram sem entender o enigmático anuncio. Estávamos a nos preparar para o sábado de Carnaval, dia do Desfile do Bloco de Sujos, já não acontece, que saia do Bairro Suíssa, passava pelo Bairro Cirurgia e encerrava o cortejo carnavalesco no Centro de Aracaju. Atendi o conselho. Em casa, minha mãe vendo-me cabisbai...

O ÚLTIMO CEPALINO

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Marcos Antônio de Melo foi por duas vezes secretário de estado do planejamento em Sergipe. A primeira delas no período 1980-1983, quando o industrial Augusto Franco chefiou o poder executivo estadual. Voltou a exercer tal cargo entre os anos de 1995 e 2002. No segundo período na secretaria do planejamento, Marcos Melo teve Albano Franco, filho de Augusto Franco, como governador de Sergipe. Albano vinha de uma exitosa experiência que lhe permitiu, durante 14 anos, presidir a Confederação Nacional da Indústria, a CNI, transformando-se numa das maiores lideranças do empresariado industrial brasileiro. O Brasil era governado por Fernando Henrique Cardoso e vivia a era de ouro do neoliberalismo, com moeda estável, crescimento econômico e uma ampla política de privatização de empresas estatais. Política que foi seguida em Sergipe por Albano Franco e que teve na privatização da companhia estatal de eletricidade, a E...

LAUDELINO FREIRE, DEPUTADO EM SERGIPE, FILÓLOGO NO BRASIL

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Em boa hora o presidente da Academia Sergipana de Letras, José Anderson Nascimento, anunciou um evento que se realizará no dia 16 de março vindouro com o objetivo de celebrar os 150 anos de nascimento do intelectual sergipano que nas primeiras décadas do século XX teve muito destaque, principalmente como filólogo. Para tanto, Anderson convocou o acadêmico, professor e juiz de Direito, José Anselmo de Oliveira, encarregado de proferir a conferência destinada a homenagear o cidadão lagartense que foi um dos mais importantes dentre os intelectuais brasileiros que no início da centúria antecedente produziram no Rio de Janeiro uma espécie de belle époque tropical. Laudelino de Oliveira Freire nasceu em Lagarto, Estado de Sergipe, no dia 26 de janeiro de 1873. Foi advogado, jornalista, professor, político, crítico literário, historiador e filólogo. Morreu no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1937. Chegou à então ca...

40 ANOS DE POSEIDON

      Jorge Carvalho do Nascimento*     A mitologia grega atribuiu a Poseidon a responsabilidade de governar as águas. Deus dos mares e rios, a ele dizia respeito tudo que tratava das águas, das quais efetivamente se fez o senhor. A ele pertencia a responsabilidade por enchentes catastróficas e o mérito de apascentar as águas para que estas cumprissem o papel de fonte da vida. É presumível que a Poseidon coubesse, portanto, velar pela abundância da água disponível ao povo grego, a fim de que a ninguém faltasse acesso ao líquido garantidor da vida. Casado com a ninfa Anfritite, Poseidon se fez pai de alguns filhos e é sempre representado como um homem forte, com barba e segurando um tridente com o qual fazia jorrar água do solo. Muitos séculos nos separam da antiguidade grega e a racionalidade do século XXI já não mais fica satisfeita com a matriz explicativa construída pela mitologia do mundo helênico. Os homens desta centúria buscam nos saberes ...

EU, KAFKA E GREGOR SANSA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     No ano que vem, 2024, registraremos o centenário da morte do escritor tcheco Franz Kafka e, um ano depois, em 2025, celebraremos os 110 anos de publicação de um dos mais importantes livros de toda a história da literatura – A METAMORFOSE. No mesmo ano será comemorado o centenário de publicação de O PROCESSO, do mesmo autor. A METAMORFOSE é um texto curto, fascinante, misterioso e polêmico. Para início de conversa, Kafka nunca explicitou se Gregor Sansa, personagem principal do seu conto havia mesmo se transformado em uma barata. Todavia, o onipresente inseto é citado sempre como sendo o astro do enredo. Para alguns intérpretes da obra de Kafka, o pobre Gregor Sansa se metamorfoseou em outro inseto, um besouro não menos asqueroso, aquele que atende pela designação popular de “Rola Bosta”. O texto de Kafka desnuda e põe do avesso o vale de lágrimas vivido pelo inditoso Gregor Sansa. Discriminado e segregado p...